30.1.10

Tenho um Moto Moto na cabeça

Alguém que me tire a porra da música do hipopótamo da cabeça. Quem me manda a mim andar a ver desenhos animados...como se a minha cabeça não me bastasse...

Chunkyyy!

29.1.10

Sherlock Holmes na fila do supermercado

Na fila para pagar no supermercado, como se pode tentar deduzir, com alguma segurança, que a jovem à nossa frente ou vive sozinha ou tem sérios distúrbios alimentares?


Olhando para o seu cesto e verificando que consta de 1 desodorizante, 1 embalagem de pensos higiénicos e cerca de 15 embalagens de comida para gato.


Como se deduz que atrás dela ia um gajo meio parvo?


Olhando para as trinta coisas que leva no seu cesto e no saco de plástico ridiculamente pequeno que leva na mão e espera que milagrosamente aguente sem romper até casa.

Ontem, os milagres não existiram.

28.1.10

Domingo Desportivo versão Striptease



Existe por aí uma gentinha que afirma em surdina que neste blog não se abordam temas de jeito. Gostaria de negar peremptoriamente, e uma vez mais, o facto de isto ser um blog. Mas, porque até tenho umas noções de entretenimento de massas, permitam-me misturar o universo do comentarismo desportivo e do striptease.

Nos habituais programas de comentário desportivo, temos resumos de dois minutos e secas de meia hora. Análise ao pormenor, discussões acaloradas sobre capacidades técnicas e capacidades de técnicos, etc. Como isso me farta um bocado, acabei por ir ontem ao cabaret Maxime, onde a noite prometia Manuel João Vieira e dançarinas exóticas.

O programa revelou-se interessante, se bem que não exactamente o previsto, pois Manuel João deu uma de Dom Sebastião e foi o guitarrista dos Ena Pá + pianista a fazer o support act das três miúdas desinibidas que entraram em palco mais tarde. O facto de ter ido acompanhado de senhoras (e uso este termo como contraste óbvio para o bandalho que sou) revelou-se um claro valor acrescentado.

Ver um show de strip acompanhado de mulheres foi como ir ver o jogo da bola com o Gabriel Alves e o Rui Santos ao lado. Não se deixa de apreciar o espectáculo, mas tem-se toda uma outra dinâmica técnico táctica. Vejamos apontamentos.

“Ah, tem muito pouca sensualidade a dançar. Parece um cepo.”
“Epá, celulite é que não, estraga um pouco o número para uma profissional do género”
“Repara na musculação das pernas. Horas de ginásio, tornear assim sem exagero não é fácil”
“A morena é sem dúvida alguma mais evoluída tecnicamente que as outras. A cabra tem cá uma flexibilidade. Pena a cara de cavalo.”
“Há muita silicone a actuar no campeonato do strip. Pena que nem toda seja realmente um valor acrescentado”.
“A combinação roupa-música não está a funcionar muito bem. Não estudou bem o número”.
“Esta gaja é muito dinâmica, ocupa bem os espaços no palco, parece que tudo está focado nela”.
“Os implantes daquela tipa são claramente uma aberração”.
“Muito boa música. Assim até eu me despia”.
“Estás a gozar com o tipo que ela sentou na cadeira? Não é fácil, vais lá tu?”

Não fui. Não podia. Estava completamente embevecido a ouvir pérolas da análise stripteaser. As gajas, de facto, não eram nada do outro mundo, mas tinham o seu talento. E não fui eu que disse isto.

27.1.10

Uma vida em 15 linhas

Alberto, o Arte e Tecto

Alberto nasceu para ser arte e tecto e, mal nasceu, disse isso a quem o queria ouvir. “Arquitecto”, corrigiam-no com um sorriso, quando ele ainda era pequeno demais para os desmentir com algo mais do que “Na, na, na, arte e tecto”. Quando começou a crescer, manteve “Arte e tecto, é o que quero ser”. Sorrindo menos, não o corrigiam tantas vezes, pensavam que era fase “Ora, o primo Carlos também queria ser burro crata e agora tem uma boa carreira, o 28 da Carris”.
Em Portugal não havia cursos de Arte e tectura, por isso foi para o Tibete, aprender tudo o que sempre quis saber, na Faculdade do Tecto do Mundo. Alberto voltou diferente, voltou contente e arte e tecto formado. É bem sucedido e passa a vida a ser convidado para ficar pendurado no tecto, a decorar casas de pessoas importantes. A arte e tectura está na moda. Há quem já não sorria e goze quando falam de Alberto, o arte e tecto. Ninguém gosta de tipos que ganham a vida a olhar as pessoas de cima para baixo.

26.1.10

Cromos auto-pedantes

Gosto de interagir com gente pedante. Especialmente de lhes dar com um malho nas rótulas só para os ver a rastejar, isto falando obviamente em sentido figurado, que eu sou pela paz (ou pelas pás, se for para lhes dar com elas nas trombas).

O que é realmente triste, em boa parte das pessoas pedantes, é que não se vislumbra o porquê dessa atitude. Se fossem génios, aristocratas de oito gerações ou, vá lá, eu, até se percebia. Mas, na sua generalidade, são pessoas mesquinhas que usam o pedantismo como uma capa de superioridade para ocultar as suas próprias falhas.

Depois, caem no ridículo perante pessoas que ligam zero a esse tipo de atitude ou que as desarmam e expõem o que realmente são. De que serve a um casal de cromos massacrar a cabeça a um empregado de mesa, porque têm de esperar por uma entrada, quando só estão à espera porque foram pela opção buffet livre (mais barata), em vez da opção carta. Quanto mais alto falam, mais ridículos se tornam, porque quem ouve pensa: “Se tens um padrão de exigência assim tão elevado, porque raio não optaste pela carta ou não te calas e esperas só uns segundos até reporem”.

Isto é só um exemplo, outro seria o de, no espaço profissional que frequento, a minha empresa (onde impera uma certa informalidade) coabitar com a de uma consultora (formalidade rules). Formalidade, gravata, tailleur, sapatinho pipi-fashion, pasta com portátil, i-Phone, ar de nhonhó e falar das férias na neve não são sinais de superioridade, mas sim de ostentação. Não me impressionam em viagens de elevador, não me fazem sentir pequeno no mesmo café e não me causam suores frios (para isso basta-me o ar condicionado).

Por isso, vão lá ser auto-pedantes para a vossa caderneta, que eu para esse pedantório não contribuo.

25.1.10

Faisal guma coisa por ti pá!


Já muito se falou sobre Abel Xavier, portanto falemos então de Faisal... Xavier. Antes de se converter ao islamismo o Faisal foi um futebolista conhecido em todos os cantos do mundo, particularmente por ter jogado praticamente em todos os cantos do mundo. Num total de oito países e mais de dez clubes, antes de ser Faisal este rapaz correu todos os campeonatos e em todos os campeonatos houve quem corresse dele.
Porquê? Porque mais do que clubes, futebol e capacidades futebolísticas, a páginas tantas o Faisal antes de o ser, acumulou mais penteados exóticos do que clubes e países somados, isto para ser simpático.

Desde Yeti, a Cotonete Dourado, passando pelo Abelminável Homem das Neves, muita coisa chamaram ao Faisal quando ele ainda não o era. A dada altura pareceu até que os seus olhos mudaram de cor, mas já ninguém ligou muito, pois tinha-se tornado rotina. Além disso, no futebol o seu destino já tinha ficado marcado pelo lance da mão-que-não-foi-mas-na-volta-até-foi nas meias finais do Euro2000.

Longe do rapazinho que tinha aparecido num clube de Amadora, o pré-Faisal era agora um boneco simpático para tirar fotos e decorar o relvado tipo árvore de Natal. Foi até aos EUA, para aparecer em postais ao lado do David Beckham. Mais socialite do que futebolite, o já quase Faisal que, diga-se de passagem, sempre foi minimamente articulado no discurso colocou um ponto final na carreira dos relvados, embora também se possa dizer que a carreira há muito que já estava em reticências.

Pensámos nós, “Ah, Faisal-no-prelo, é agora que vais deixar de ser motivo de atracção e acalmar”. Mas não, não havendo futebol, logo houve Islamismo para voltar à ribalta. Totalmente lícita a opção (como todas as de cabeleireiro o tinham sido), mas Faisal, e agora sinto que te posso tratar assim, não achas que depois de tanta tropelia já poucos te levam a sério?

Logo à noite, quando pisares o relvado da Luz para ajudar o Haiti, pensa nisso. Porque o Faisal podia ser o começo de algo novo e não uma sequela de um Abel Xavier de quem já todos já só estão pelos cabelos.

Uma pessoa reinventar-se é algo positivo, mas de que serve isso se ficar tudo na mesma?

23.1.10

Mordam lá esta



Ainda outro dia aqui falava da epidemia de vampiragem que para aí anda, desde que a coisa passou da categoria horror para a prateleira pop/sexy. Como é óbvio, a programação nacional não podia deixar de aproveitar a ocasião para nos sugar a paciência.
Assim sendo, já este fim de semana, estreiam Lua Vermelha (SIC) e Destino Imortal (TVI). Se a sinopse da primeira tresanda a cópia da saga do Crepúsculo, o segundo também tem essas referências mas dá-lhe um toque familiar, coisa que já se tinha para aí há 20 anos, com a Vamp que nos chegou direitinha do Brasil.

Vou já colocar uma coleirinha de alho no meu comando de televisão, que eu estou bem a par das tradições e sei que os vampiros e a programação da tanga só me entram pela casa adentro se eu deixar.

PS - Aguardo nervosamente ser "surpreendido" por séries nacionais sobre tremores de terra, poker, médicos loucos, médicos pseudo-sexy e super heróis, coisas que também parecem estar a interessar audiências.

22.1.10

Quando o telefone me toca


Todo o Super Homem tem a sua kryptonite, dai que seja natural que até eu tenha as minhas fraquezas. Sendo eu matreiro como uma qualquer raposa que se preze, não me vou pôr para aqui a enunciar as que realmente interessam, até porque em termos de folhetins sentimentais já está a blogosfera bem servida.

No entanto, e visto que não estou à espera de uma chamada vossa, posso dizer-vos que tenho muito pouco prazer em falar ao telefone e que o uso frenético do telemóvel veio apenas acentuar isso mesmo. Do alto dos meus skills comunicacionais, quer por via da escrita, quer em pessoa, hábil artista do léxico diversificado e parlapié para entreter donas de casa e surpreender eruditos, vejo-me feito mono em conversações telefónicas, especialmente quando não se trata de gente que me é próxima (e ainda assim...).

Há algo no telemóvel (para além de que este aparelho veio estimular o inseguro e o pequeno controlador que há em muita gente) que me soa sempre a traiçoeiro. Enquanto observador da fauna social, na conversação telefónica falta-me a proximidade que, para muitos, o facto de ser mano-a-mano parece contentar.
Depois, a riqueza da escrita quando existe, para mim é bastante mais sedutora do que falar para o tamagochi. É essa a minha natureza, quanto ao resto, muita saudínha para quem aprecia uma boa hora de converseta com a torradeira no ouvido.

Quem me ouvir ao telemóvel, terá dificuldade em perceber que por detrás daquela voz cortante, que quer despachar o que quer que esteja na origem daquela chamada o mais depressa possível, está um tipo eloquente, sagaz, irónico e, acima de tudo, modesto. Mas, por outro lado, quem vem aqui ao blog também nunca viu nada disso e ainda volta.

Por isso, vou desligar a chamada, mas fiquem aí que eu já volto.

21.1.10

Mestre-sala de pânico


As pessoas tendem a não gostar do pânico, muito possivelmente porque não conseguem controlá-lo. O que até é natural, dado que o pânico viaja normalmente acompanhado do horror e da desgraça.

Mas, em ambientes específicos, não me referindo eu a experiências com ratos de laboratório e queijos suíços, o pânico é um bom amigo. Por exemplo, nos meus tempos de marujo, dei por mim num destino tropical rodeado de beldades, estando elas rodeadas maioritariamente pelos seus respectivos Sandokans.
Um deles distinguia-se pelo seu físico hercúleo e atitude de matador. Por todo o sítio onde o vi por essas bandas, tinha sempre um ar calmo, cool e de quem salva o mundo enquanto prepara um batido de proteínas.

Quis o destino que estivéssemos os dois no mesmo barco (literalmente) num cruzeiro pela região. A meio do mesmo, os animadores celestiais acharam que seria porreiro abrilhantar a coisa com uma tempestade tropical e cocktails de pânico para toda a gente. Chuva a rodos, muita agitação e eu, sempre que pude, no convés a espreitar a tormenta, enquanto que o matulão se encolhia lá em baixo, sentadinho ao pé da Dona Alzira de 70 anos.
Se eu tive medo? Tive sim senhor, mas nunca pensei que estava ali a queimar os últimos segundos da minha existência. Mas, quando aquilo terminou (e foi relativamente breve) dei por mim a rir e a pensar “Epá que experiência”. Foi quando o Hércules de trazer por casa assomou ao convés e, vendo-me a rir, disse meio a chorar entre dentes indignado “Epá...epá” (fazer uma voz fininha para ainda tirar mais seriedade ao indivíduo) “Epá, mas tu estás-te a rir?? És parvo, nós íamos morrendo, morrendo ouviste e a rir. Eu não percebo...”

Mas eu percebi. As pessoas em pânico são como fotografias sem moldura decorativa. Por mais enfeitadas que estejam, na altura da verdade, despidas dessa capa, é aí que as conhecemos verdadeiramente. E isso, rapaziada, é coisa que tem um valor para lá de Bagdad.

PS - Isto é válido para climas tropicais, para a pessoa ao vosso lado no emprego ou para o colega de carteira. Vejam como em reagem em pânico/sob pressão e terão uma boa noção daquilo com que podem contar.

20.1.10

Batam palmas, é o bate-pé



Se o nome desta actividade lúdico-libidinosa não vos diz nada, então é porque são jovens demais para estar a consultar este blog e, nesse caso, fechem lá a janelinha e voltem para o site dos Morangos com Açúcar.

Caso o nome vos desperte algumas memórias e todo um sistema de código numérico-beijoqueiro, então estão no sítio certo. A verdade é que recentemente, pelo meio de uma garrafa de vinho (não, não foi sozinho à porta do Lidl), veio à baila o tema do bate-pé, esse jogo que batia nas horas o Traga-Bolas ou o Pulgas na Cama.

Haveria coisa mais interessante para criancinhas desinibidas do que juntar raparigas de um lado e rapazes do outro (na altura o governo ainda não tinha aprovado o bate-pé entre pessoas do mesmo sexo) e pô-los a pedir números uns aos outros, que correspondiam a coisas que iam do aperto de mão, ao beijo na boca, ao diabo a quatro e até ao casamento.

Era a adrenalina de arriscar e ver-se correspondido ou jogar pelo seguro e ser um pacholas. A rejeição teria que ser superada convidando um amigo para irem beber um pacote de leite com chocolate e desabafar sobre o assunto. Com o tempo, gente inventiva começou a inventar números que já queriam dizer tudo e mais alguma coisa, lembrando-me eu de um que já trazia laivos de um certo materialismo feminino, pois exigia “um anel” antes qualquer outro tipo de brincadeira a dois.

Longe de mim ficar-me para aqui a chorar pelas memórias. O bate-pé tem o seu lugar na minha prateleira de recordações, mesmo ao lado do episódio em que parti a cabeça à pedrada ao meu melhor amigo, depois deste me roubar uns berlindes e da vez em que a coisa correu mal quando resolvi saltar de um eléctrico em andamento ao pé do Aquário Vasco da Gama. E está lá muito bem.

Contudo, não deixa de me assomar um sorriso maléfico quando penso no que aconteceria se, no mundo dos adultos, as coisas também funcionassem com a lógica do bate pé- “Então, vamos jantar fora?”, “Tudo bem, mas aviso já que contigo não passo do 4”, “4?? O que é isso?”, “No máximo dou-te um beijo na boca”, “Ah, então esquece o jantar, vamos só ao cinema”. E logo se ouviria um pé a bater no chão, pondo fim à história o que, vendo as coisas, seria bem melhor que uma chapada.

Phoenix, 1901

19.1.10

Eu em 3 verbos

Querem gramática pessoal, querem? Então tomem lá.

Criar
v. tr.
1. Dar existência a.
2. Dar o ser a.
3. Gerar; produzir.
4. Originar.
5. Educar.
6. Inventar.
7. Fomentar; estabelecer; interpretar.
v. pron.
8. Nascer; produzir-se.
9. Crescer; passar à juventude.

Ironizar
v. tr.
1. Tornar irónico.
2. Exprimir com ironia.


Racionalizar
v. tr.
Tornar racional ou reflexivo.


Como é óbvio, o léxico da minha existência é mais extenso e tem erros. Mas não estou cá para vos facilitar a vida e prontuários ortográficos é coisa que não falta à venda por aí.

18.1.10

A minha ida ao veterinário


Haverá melhor programa para domingo de manhã do que ir ao veterinário (a pergunta é retórica, não precisam de responder). Pois foi isso que fiz.

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O espaço anterior está reservado a todas as piadas do género: “Então, doeu muito?”, “O que é que tinhas?”, “De um animal como tu espera-se tudo”, etc. Posto isto, posso dizer que é uma experiência curiosa.

Primeiro que tudo, o nosso sofrimento é indirecto. Ou seja, podemos estar preocupados, mas sobra-nos a lucidez mental (quando esta existe) para observar o que nos rodeia. Em segundo lugar, porque o binómio pessoas-animais (quando é possível a distinção) gera situações caricatas, apesar do local em causa.

Assim, num parágrafo, encontramos: a família desavinda que acerta as contas na sala de espera, utilizando o animal como arma de arremesso. A velha fatalista que sofre sempre muito com os animais e jura que o Jeremias, o 38º gato que tem vai ser mesmo o último (ou talvez não, tal é a falta de memória que a leva a confirmar 38 vezes como é a história da medicação). A senhora dondoca que tem um cão de ouro, pelo receio que tem em mostrá-lo ou deixar que ele interaja com pessoas e bichos. O pai com o filho que tem comportamentos mais animalescos do que o paciente. A mulher que tem no animal de estimação o filho que ainda não tem. O tipo que está preocupado porque usa o cão para engatar e com ele avariado a coisa não corre bem. A velha beata de consultório, que sabe tudo sobre animais e consegue descrever mais de 20mil mortes trágicas e doenças horripilantes de animais antes que consigas dizer “Cale-se, por favor”. Pelo meio ainda vão lá algumas pessoas normais, que gostam de animais e de pessoas como eu.

No final de contas, é difícil não sorrir quando finalmente o veterinário nos atende e, meio em desabafo nos diz “Às vezes chegam cá em muito pior estado do que os animais”.
Calculei que fosse uma dica para não continuar a fazer-lhe xixi na perna.

15.1.10

Mas tu lês o que escreves ou escreves o que lês?

Houve alguém que se lembrou de estabelecer que quem gosta de escrever, por norma gosta de ler. Big deal, isso apenas vem confirmar que boa parte dos escritores são uns narcisistas de primeira que gostam é de ler aquilo que debitam enquanto dão palmadinhas nas próprias costas.
Desde já quebro esse mito, se há pessoa que não gosta de ler aquilo que escreve sou eu, essencialmente porque quando o faço chego a ficar com inveja de mim próprio e do misto de parvoíce, genialidade e modéstia que emana da minha mente. Além disso, não me quero sujeitar a encontrar comentários meus a gozar com os meus próprios textos, que eu sei bem como são os tipos que têm a mania que são engraçadinhos. Nem que seja por ser um deles.

Assim sendo, entretenho-me a ler livros de outras pessos, primeiro porque gosto de conhecer pessoalmente os artigos que decoram as minhas estantes e, em segundo lugar, porque tenho uns quantos volumes daquelas edições tipo 1001 coisas (Livros, Filmes, Discos, Receitas do Chefe Silva) para ver antes de Morrer e agora, apesar de ainda estar na flor da idade, sinto muita pressão nos ombros, especialmente no que ao Chefe Silva diz respeito.

Neste momento, dois volumes em análise. Um deles sobre algo que muito possivelmente não sei se tenho, outro sobre algo de grande valor para quem o sabe utilizar. Para não me envergonhar, obviamente não vou dizer mais que isto.




Nota mais ou menos séria: Para quem aprecia humor (e para cá vir tenho a ligeira impressão que ainda são uns quantos), a Antologia é uma bela porta de entrada para a obra de alguns autores portugueses que, na melhor das hipóteses, muita gente conhece apenas superficialmente.

Nota menos séria: O do cérebro também é muito interessante, especialmente para quem só o conhece/utiliza muito superficialmente.

14.1.10

Falar do tempo, essa cena fashion


Começo por agradecer ao tipo que vendeu a alma ao Diabo para termos quinze minutos de Sol em Lisboa hoje. Apesar de efémero, é um esforço bonito que tive a oportunidade de observar. Obrigado e que a danação eterna não faça esmorecer esse espírito grandioso.

Mas, adiante, que é do tempo que se fala aqui hoje. E, para quem não é de modas, haverá melhor tema? Actualidades, como o seu nome indica, são temas de conversa que facilmente deixam de condizer com a roupa e, porque não, com a capa de pessoa interessante que gostamos de usar.
Temas mais pesados, como Filosofia, Arte ou “Bola” não ficam bem a toda a gente, uns porque se arrastam demasiado, outros porque são muito formais e alguns temas nem sequer assentam bem a toda gente. Haverá coisa pior do que alguém a usar um tema na rua ou num jantar de amigos que não só não tem nada a ver com ele, como ainda se percebe que não está nada confortável?

Portanto, se querem o meu coneelho, falar do tempo é o eterno “novo preto” em termos de tema de conversação. Pode parecer de propósito, mas fenómenos como o aquecimento global só vêm confirmar isto. Tempo incerto, degelo, chuvas e secas, tornados, ciclones, anti-ciclones ou, para os mais simplistas, “um caloréu dos diabos” ou “uma humidade que não se pode” são frases que se pode usar sempre em qualquer altura.
Seja para quebrar o gelo em reuniões, elevadores ou a preparar bebidas, em situações românticas (Vide Guia Nacional do Piropo “Estás a causar-me cá um aquecimento global”) ou mais funestas (Vide Guia Nacional Funesto “Olhe, foi-se por aí abaixo como a temperatura e agora está ali frio e rígido que nem uma solha congelada”), o tempo há-de ser sempre útil para quem quer ficar bem na fotografia.

Como é óbvio, esta norma não se aplica a mim. Eu sou daqueles privilegiados que faz conversa de qualquer coisa, até do tempo....

13.1.10

I don’t want to live in Ibiza

Racionalizar uma música de dança, ora aí está uma coisa que não se deve fazer. Como tal, obviamente que me decidi a fazê-lo, mais por preocupação depois de me ter apanhado a cantar “I want to live in Ibiza”, do que por outra coisa.

Primeiro que tudo, eu NÃO quero viver em Ibiza. Depois, visto que não sou grande fã de música do género (o que não quer dizer que não seja um dançarino de primeira), quero aqui culpar rádios e auto-rádios alheios pelo facto de injectarem tal pastilha nos ouvidos de inocentes (vou poupar a mentira de dizer “como eu”).



Finalmente, eis as conclusões da minha investigação

- O artista é o DJ Diego Miranda e sua partenaire Liliana. Diego, sendo português, meteu o Diogo no bolso, pois o apelo do mercado hispânico tende a causar este efeito. Por esse motivo, tratem-me por El Malo a partir de hoje.

- Sim, eu sei, a letra de uma “música de dança” baseia-se num refrão simples e muita repetição. Tal não deveria dispensar que o resto da letra fosse mais do que palha para enfeitar, já que insistem em ter uma.

- O vídeo é o espelho do aspiracional de quem quer efectivamente viver em Ibiza. Mais uma boa razão, para eu não querer fazê-lo.

- Começar com um plano de Lisboa é bonito. Mas, no mercado internacional é mato e engana, pode pensar-se que Ibiza é já aqui.

- Liliana, moça culta, lê um livro. Toma lá que já captei todos os intelectuais para o meu som. Nesse livro está um postal/marcador de Ibiza. O sonho e as memórias começam...

- Parece que Liliana e su muchacho gostam de passear de barco ao pôr do sol. Calha bem quando se canta “The sun is rising”. Em Ibiza, o andamento é tal que é fácil não sabermos a quantas andamos.

- Ibiza é uma ilha bonita, tanto que esta música podia ser o hino da Remax da zona (ou seria um remix?). A porrada de planos idênticos da baía comprovam isso.

- Há uma certa selectividade em Ibiza. Daí as festas abrilhantadas por Diego parecerem ter sempre as mesmas cinco gajas focadas e o resto ser sempre desfocado en passant. Ou isso ou a guitola não dá para tudo.

- Ibiza é também sensual. Se o ritmo não demonstrar isso, Liliana terá que o fazer, tocando-se aqui e acolá ao som do reminder “Feel your body and everybody, thats the game we will play”. Espera lá “my body” e depois “everybody” e “games and soi on”? Não sei bem se esse é o tipo de comboio maroto que eu quero apanhar...

- O artista principal também quer mostrar aos amigos e família que tem a sua tatuagem finalizada. Sôr realizador, ponha lá dois planos focados na mesma. E, já que investi dinheiro no vídeo, ponha lá também uns planos saloios de mim e da Liliana na piscina em relax activo, que a vida em Ibiza não pode ser só trabalho.

- Como se isso não bastasse, há uma estrofe final, semi-declamada, para nos fazer pensar “The sexy island / The Powerful One / If you don’t have the spirit / Than you can’t return”. Que tipo de controlo fronteiriço é este? E porque raio a dicção da moça não me deixa perceber se é can ou can’t que ela diz. Não me convinha nada fazer as malas e depois chegar lá e voltar para trás por causa do spirit em falta ou em excesso.

- Bónus track: os comentários no Youtube. Valem mais que o vídeo, especialmente no âmbito da Psicologia e da Sociologia.

É fácil dizer mal? É
Será fácil fazer melhor, sendo menos wannabe e vendo mais as coisas como elas são? Também.

12.1.10

O Tempero médico



Nunca fui rapaz muito dado a doenças, pelo menos daquelas comuns. A título de exemplo, não tive sarampo, nem papeira, nem varicela, nem outros bónus infantis que nos dão histórias para a posteridade, depois de adultos. As minhas maleitas foram sempre coisas mais condizentes com a maldade que me é inerente. Ou seja, estranhamente interessantes.

“Ah, o menino vomita e tem febre alta 1 ou 2 vezes por semana e depois passa-lhe? É da alimentação, vá fazendo listas do que ele come”. Só depois de várias listas, vários vómitos e várias febres depois se chegou à conclusão de que eram os malandros do feijão e do grão. Solução: não os coma (alimentos só retomados depois de adulto).

“Ah, o menino foi levar uma vacina e ficou com um bracinho que faria o Hércules corar de inveja? Deve ser reacção alérgica, vamos fazer testes”. Testes esses que levaram ao conselho de “Se não quer ser culturista, tome só as vacininhas mesmo em casos essenciais”. Lá se foi a colecção de carimbos no boletim de vacinas...

Fora isso e uma pele sensível para contrastar com um interior endurecido, aqui o artista cresceu saudável e com uma destacável resistência à dor. “Ai que bom!!” dirão os mais fracotes, ainda a chorar agarrados aos dedinhos depois de terem magoado uma unha na tecla Enter. Atentem ao que vos digo, tolerância à dor é como um tempero, só é boa até certo ponto. E quem vos diz isso é um tipo que pratica desporto desde tenra idade com todas as amolgadelas que me fazem rir quando me dizem “Desporto é saúde”. Pronto, por acaso é, mas também é muita porradinha no lombo.

A dor é um alarme do corpo. Tal como os alarmes dos carros, às vezes foi só um anormal que se encostou, mas convem pelo menos ir espreitar. O que também não é o mesmo de correr aos gritos escada abaixo, cada vez que se tem dor/o alarme do carro toca.

Serve isto para dizer que, por um lado não tenho grande estima pelos campeões da hipocondria, medalhados inúmeras vezes nos Jogos Olímpicos do Alarmismo e nos Mundiais do Choraminguismo Absoluto. No entanto, por outro lado, também não me deslumbro com campeões da saúde de aço, os Homens e Mulheres de Ferro que se orgulham de ter feito o último check up médico na maternidade e que só sentem dores em caso de explosões nucleares à queima roupa. É gente que ainda não aprendeu que quando o corpo nunca se queixa de nada....

11.1.10

Pedido Encarecido ao Sr. Vendedor de casas

Faça-me um favor, ou melhor, faça um favor a si mesmo. Se eu estou interessado em comprar uma casa, trate-me como uma pessoa que está interessada em comprar uma casa e não como um alguém que vai comprar um pacote de leite. Até porque, vistas as coisas, a comissão de uma casa é substancialmente maior do que a de um pacote de leite, indepentemente do tamanho da vaca.

Primeiro que tudo, se está apostado nas novas tecnologias e não entende por novas tecnologias a utilização de vocábulos de venda tipo, “muito cachet”, “joy of living” e toda uma gama de adjectivos para lá do indispensável, então ponha o imóvel na Internet. Garanto que, como eu, existe muita gente que agradece a disponibilidade. Mas, se o fizer, agradeço também que ponha fotos, porque um quadrado cinzento a dizer “Ñão disponível”, não é um grande cartão de visita. No entanto, não deixe que a sua veia de Doisneau se apodere de si. O jardim a 200 metros da casa pode ser agradável, a rua pode ser pitoresca e duas crianças que brincam num largo podem ser inspiradoras, mas o montante pedido não inclui nenhum destes itens, pelo que o melhor é concentrar-se na casa. Pronto, não sejamos extremistas, deixe lá uma da rua ou da vista, mas só para complementar.
Por outro lado, a Internet também é conhecida por ter posto o mundo inteiro em contacto em segundos. Pode parecer estranho, mas se demorar mais tempo a responder a um email do uma carta a seguir no correio, então talvez ande a apostar no cavalo errado.

Outra coisa, sei que está muito ocupado e cinco minutos antes de eu ir ter visto aquela casa esteve lá com um casal simpático que também quer mesmo, mesmo, mesmo este apartamento e que, sem me querer pressionar, se eu gostar dele é melhor decidir rápido. Por isso, para pouparmos a todos tempo, incluindo ao tal casal, quando colocar o anúncio da casa na Internet, seja descritivo, mas acima de tudo seja honesto.
Não quero que fira os seus princípios, mas partilhar informações como se o prédio tem elevador ou não (especialmente quando aquele 3º andar tem uma vista magnífica), se é uma cave ou não (que eu deduzo apenas pelo facto de indicar que tem muita luz mas eu nas fotos não ver janela nenhuma) ou se o "precisa de uma pintura" não se refere apenas ao cenário idílico que esteve a desenhar, já que a casa precisa mesmo é apenas de uma extrema unção.
Longe de mim criticar o seu talento em eufemismos, mas uma casa para redecorar a gosto não é o mesmo que uma para reconstruir a custo e um imóvel para investimento, não é o mesmo do que um imóvel vendido com um idoso como revestimento. Também não vou apontar o dedo à precisão da sua localização geográfica, mas se me vai dizer que o metro é a cinco minutos, não parta do princípio que eu sou um queniano corredor de fundo e não use a Alameda como referência, quando ela já só é uma doce memória quando chego finalmente à casa onde me aguarda com um sorriso e outras histórias para contar.

A verdade é que, meu caro (e não leve esta apreciação para o campo do excessivamente valorizado), eu não vou comprar uma casa sem a ver, não vou comprá-la a pensar que, se for má, depois troco para a semana e, acima de tudo, não vou comprar se não gostar dela. Portanto, toda a areia que me atirar previamente para os olhos, todo o cenário irreal que me pintar e todos os eufemismos com que me bafejar dissipam-se no momento em que eu conhecer o imóvel, como tanto gosta de lhe chamar.
Se falarmos por telefone, vai obrigar-me a parecer um tipo da Saúde24 a perguntar todos os sintomas que a casa tem e não foi capaz de me descrever antes. E eu não gosto de tratar da saúde a ninguém por telefone. Se chegar ao ponto de ver a casa e me sentir enganado, pior ainda. É que, tal como certos argumentos, não se ganha muito em construir casas a partir do telhado. E a queda é sempre maior.

Por isso, Sr.vendedor, não pense em mim como um potencial comprador de argumentos, mas sim de casas. É que se depois de vender uma casa lhe pagassem a comissão em eufemismos, certamente não estávamos a ter esta conversa.

8.1.10

O ponto G das discussões na rua


Na sequência do post anterior, dediquei parte do dia de ontem a uma actividade vulgarmente definida como – dormir que nem um urso. Já a tarde ia avançada quando, para além de acordar para a vida, despertei para uma gritaria na rua.

Ora eu, para além de um extremo bom acordar, disponho também de uma consciência filosófica muito activa. E, testemunhando os berros entre (suponho eu) um peão indignado e um condutor, transpus o que ouvi para um reflexão profunda sobre discussões de rua, em geral.

A situação é, tirando nos casos em que a pancadaria é logo utilizada para abrir o certame, muito simples: há uma escalada de argumentos, que vai aumentando no volume utilizado pelos envolvidos e reduzindo na racionalidade dos argumentos.
Mas, e isto tem quase validade científica na Universidade de Badmington, há um momento em que a coisa passa da discussão à selvajaria, dez segundinhos em que um ou mais intervenientes rebentam com o fusível e passam para o lado negro da força. Interessantemente, ou não, são precedidos normalmente por uma repetição de argumentos e uma pequena pausa.

Vejamos o exemplo de ontem:

Biltre 1 – Então mas você ainda acha que tem razão!!!
Biltre 2 – Sfraggles zbournin outnaer BONDER! (imperceptível, mas intenso)
Biltre 1 – MAS, você ainda acha que tem razão??? (mais forte, mais raivoso)
Biltre 2 – Sfraggles, sfraggles!! (meio a terminar, meio a cagar para o que o outro disse)

(Ligeira pausa, possivelmente para revirar dos olhos do primeiro biltre)

Biltre 1 – Você é mas é um palhaço de primeira...., OTÁRIO do C”#&””#, não respeita ninguém, és UM MERDAS.

A partir daí, o resto é circo.

Pode parecer exagero, mas dependendo dos interlocutores, quem se presta a discutir na rua tem um fluxo de racionalidade muito reduzido. E raramente a conclusão chegada é de conciliação, mas mais de distribuição de insultos, infelizmente parcos em criatividade.

É pena, mas também é disto que o meu povo gosta. E quem sou eu para contrariar o povo.

7.1.10

Errado o c......

Estar a trabalhar às 5 da matina, sem ter passado pela casa Partida nem recebido horas de sono não está errado.

Errado ficou lá atrás, para aí depois de jantar.

6.1.10

Olha que te parto os rótulos

Há muito que a Humanidade tem uma carinhosa afinidade com o vinho. Tanto é assim, que já lá vão uns bons aninhos desde que decidiu começar a bebê-lo. Mas, que não se pense que é sobre a boa da pinga que me vou debruçar, pois para isso já me bastou o pequeno almoço.

Serve este pequeno raciocínio para mais uma analogia barata, prato favorito nesta modesta casa. “Um bom rótulo não faz bom um vinho e um mau rótulo não faz mau um bom vinho”.

Funciona para o vinho, funciona para as pessoas. Com a diferença que é mais fácil tirar um rótulo a uma garrafa do que a uma pessoa e que há mais rótulos certos no mundo vinícola do que no mundo das pessoas.

5.1.10

Monstruosamente Sexys



Comecemos por esclarecer algo. Sim, vivemos na era das aparências. Não, as crianças e os animais não fogem de mim quando me vêem (pronto, não correm pelo menos).

É que, desde que o tio Bram Stoker formalizou a vampirada clássica na forma Conde Drácula nasceu um mito, daqueles que chupa sangue. Aliás, o cinema e a literatura já nos trouxeram N tipos de vampiros, assim como as Finanças, a Assembleia e a Banca em geral. No entanto, a figura romanceada de um tipo sedutor, apesar de morto-vivo, com charme aguçado e dentes a condizer é compreensivelmente mais apelativa.

Até aí tudo bem. O problema tem sido que, numa era em que a imagem é cada vez mais preponderante (vá lá que a escrita ainda serve para ir enganando alguns), a ficção cinematográfica tem sido cada vez mais arrastada na corrente, ultrapassando o equilíbrio do lado aspiracional que é natural ao cinema.
Ao ver, por mero acaso, o primeiro filme da saga Twilight, deparei-me com uma tribo de vampiros que facilmente podia estar toda no Lux numa qualquer sexta-feira. Jovens, modernos, bonitos, mas mortos e sedentos de sangue, com uma palidez que nem 10kgs de picanha crua atenuariam.

Sim, é um filme assumidamente teen. E não é menos verdade que já fizeram trinta por uma linha à vampiragem desde que o Bela Lugosi começou a sugar pescocinhos nas salas de cinema. Mas, ao ver este protótipo sexy passado para a miudagem, não pude deixar de pensar (coisa que me desgasta o organismo): a importância dada à aparência está num ponto tal, em que até os monstros são obrigatoriamente bem parecidos e de alto potencial sexy, segundo os padrões vigentes.
Para além dos problemas de consciência que isso levanta aos vampiros, que ao saciar a sua sede voraz, têm agora de pensar duas vezes: “Epá, mas então vou morder este camafeu e depois tenho de levá-la lá a casa para apresentar ao paizinho, que há dois séculos que me anda a dizer para não andar a morder nos caixotes do lixo.... Mais vale passar ali nas traseiras do hospital, pedir duas doses e umas compressas ensanguentadas para comer em casa”.

O que virá a seguir, Frankensteins de corpo escultural, rosto profundo e apenas uma cicatriz minúscula na testa, devido aos progressos da cirurgia estética? Uma múmia sexy, com ligaduras DKNY e corpo de modelo Victoria’s Secret, que atormenta todos aqueles que visitam o túmulo de uma clínica assombrada?

Não sei, mas cheira-me que cá vou estar para ver.

4.1.10

A última tentação das passas



Depois de um dia inteiro a ouvir e a disparar automaticamente “Bom Ano” para todos os lados (proferindo, em certos casos, o sorridente apêndice em voz baixa “...e vai morrer longe”), finalmente tenho alguns minutos para debater matérias realmente importantes.

Nomeadamente, passas e desejos. Se é certo que o mundo está cheio de gente que diz não crer em nada que não seja palpável, por outro lado não faltam curandeiros e fontes dos desejos pejados de moeda corrente até ao tutano. Daí achar que, salvo aqueles que à meia noite já iam em 2050 em graduação alcoólica, mesmo quem não acredita lá mama 12 passitas e pede os seus desejos.

É fácil demais, nunca falta uma mão cheia delas por perto, nem gente disposta a eleger-nos nados-mortos para o ano que acaba de nascer, caso nos recusemos a semelhante ritual. Eu, que tenho a rectidão moral do circuito de Jacarepaguá, cedi num instante e lá me pus a desejar à laia da máxima “Não acredito em passas, mas já que elas existem e se comem.....”

Os primeiros desejos são fáceis, é aquilo que queremos e se tornaria mais fácil se bastasse uma uva seca para alcançar. Os segundos são aqueles que os mais altruístas dedicam aos seus entes queridos e os mais egoístas também, com a diferença em que o seu único ente querido são eles próprios.

A malha aperta quando olhamos para a mão e já só temos três passas e um mundo inteiro ainda por dominar. Sempre advoguei que a última passa deveria ser de “Desejo ter mais 12 desejos”, o que nos levaria à loucura ou, pelo menos à indigestão, por abuso de passas. Não sendo possível, é que aqui que entram os chamados desejos genéricos. São desejos iguaizinhos aos outros, mas com a diferença que abarcam uma catrafada de gente que não coube nas outras nove passas.
Do género “Quero que todos os meus amigos tenham dinheiro, para poderem pagar finalmente o que me devem” É bonito, é altruísta e resolve uma resma de problemas, a começar pelos nossos.

Outro “Quero que haja paz no mundo, começando pelo andar de cima, porque a velhinha anda muito agitada e arrasta os pés a noite inteira, enquanto ouve os programas televisivos que pões gente anormal a ligar para a televisão”. Mais uma vez uma solução geral para um problema específico, que traz a paz ao Sudão, mas também ao meu ambiente urbano.

Se querem saber mais, tivessem usado uma passa para serem mais criativos. Se estão a ler isto, escusado será também dizer que a passa que gastaram para passarem a ter bom gosto não resultou...