20.12.10

O tilt do Sim-Não

Há gente que não tem papas na língua. Bem vistas as coisas, em países onde a tortura não se limita à programação televisiva, há até quem não tenha a própria da língua. Mas, o que a mim me baralha o sistema é gente que tem dois nós na cabeça e três na língua.

“Então caro Mak, que azedume é esse” pensará o leitor que, devido à época, tem um ligeiro excesso de açúcar no sangue que lhe dá para misturar períodos de euforia momentânea no seu quotidiano. É simples, trata-se apenas um azedume de grau moderado, em relação a gente que começa invariavelmente as suas frases a contradizer-se.

“Olha, vais passar lá daqui a bocado”.

“Sim...Não, vou primeiro a casa e depois vejo como me sinto. Não é como me sinto em casa, é como me sinto em relação a sair dela”.

“Isso que estás a comer, não tem uma espécie de laxante?”

“Sim...Não, quer dizer, ainda não sinto, mas se calhar não sei”.

“Já pensaste em atirar-te para debaixo de uma ceifeira debulhadora?”

“Sim...Não, respeito imenso máquinas agrícolas, mas não me meto debaixo de qualquer uma...”

As questões são indiferentes, pois o tique é sempre igual “Sim...Não”, “Não...Sim”, “Sim...Não”. É como se fosse uma finta de corpo involuntária, que a pessoa tem para se defender de qualquer compromisso inicial em relações tão importantes como “Essa caneta é tua?”.

O problema é quando se confronta essas pessoas, tentando saber se têm a noção que essa contradição se pode tornar irritante numa conversa/convivência continuada. “Epá, mas tu tens a noção que começas a frases todas a contradizer-te?”

“Sim...

Não...”

3 comentários:

  1. Isso pode ser sintoma de uma quaquer disfunção. Há nomes tão interessantes nos livros de psiquiatria... mas agora não me está a lembrar nenhum pois não fiz os trabalhos de casa!
    Mas se é aflitivo ver alguém a responder começando a contradizer-se, mais aflitivo é fazeres uma pergunta e responderem-te laconicamente. Dou-te um exemplo.
    Este diálogo passou-se entre colegas de carteira:
    Um pergunta... «Olha lá meu, porque é que escreves com a mão esquerda?»;
    o outro responde... «E tu pá, porque é que comes de garfo e faca?»

    Sim... não... quer dizer...

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  2. Bem... pois... então é assim... a modos que...

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  3. Pois, parece que eu padeço desta bengala de discurso. O meu estagiário (salvo seja) fez-mo notar recentemente, ao que eu desmenti com toda a peremptoriedade. E agora, de cada vez que falo, ele diz em voz alta no fundo da sala "SIM - NÃO!", "VÊS? SIM-NÃO" e andamos nisto todo o dia.

    P.S.: Olha, eu acho que já mereço ter um link ali na tua lista de mui nobres blogues. Não achas? :)

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