2.12.10

O cacilheiro dos segundos contados

Todos os dias era sempre a mesma coisa e tudo se decidia numa questão de segundos. Bastavam uns segundos a mais na cama, uns segundos a mais no banho, uns segundos a mais a decidir a roupa ou uns segundos a mais ao pequeno almoço e tudo estava perdido.

O cacilheiro das 8.38 não esperava por ninguém. Bem, no caso dela talvez abrisse uma excepção, mas uma excepção de breves segundos.

Tal como se fosse uma repetição gravada, todos os dias chegava à estação com o aviso final a soar nos altifalantes. Ofegante, passava a correr pelos torniquetes, esgueirava-se pelas cancelas, intstantes antes destas se encerrarem e ouvia o barulho dos seus saltos a ecoarem ao longo da rampa, chegando primeiro que ela ao velho cacilheiro.

As amarras já estavam soltas quando entrava na ponta final do cais, a pequena plataforma de madeira já tinha sido retirada e apenas aquele velho marinheiro de barba e casaco coçado, com aquela expressão seca típica de quem já passou muito tempo embarcado, passia dar conta da existência dela.

Todos os dias ele lhe estendia o braço, desafiando-a para um salto curto que a ela lhe parecia olímpico. E todos os dias ela hesitava um segundo, antes de saltar e sentir o braço dele a prendê-la com a mesma segurança com que amarrava e desamarrava cordas.
Trocavam sempre um sorriso “Foi à continha, menina. Amanhã se calhar não faz outra igual.” dizia ele, trancando a portinhola de ferro e seguindo o seu caminho ao longo do convés. E ela agradecia, com um “Obrigada” sumido, que ele correspondia apenas com um acenar de cabeça.

E foi na manhã em que se apercebeu deste facto cíclico, que se apercebeu também que acabava de perder os segundos que nos outros dias lutava para conservar. E correu o dobro, o triplo para tentar recuperar o tempo.
Entrou na estação apenas uns segundos depois do aviso final. Passou nos torniquetes e quase que ficava presa na cancela que se fechava. Descalçou os sapatos de saltos para correr ainda mais depressa.

Não se ouviram passos a ecoar rumo ao cais.

Talvez por isso, Alberto, o velho marinheiro de barba e casaco coçado tenha pensado uns segundos antes “Olha, não há concerto de sapatinho finório, foi hoje que não se safou”, voltado as costas embrenhado nesse pensamento, esquecendo-se por um instante de trancar a portinhola de ferro.
E ela, vendo a portinhola aberta e a distância entre o cais e o barco apenas uns segundos maior, terá pensado “É hoje que salto a sério”. Não sentiu o braço forte do costume a segurá-la. Sentiu apenas o vazio e uma sensação de choque ao entrar na água fria e suja do rio.

“Amanhã não faz outra igual” ouvia ela na sua cabeça, enquanto via o cacilheiro das 8.38 afastar-se, sem a passageira dos segundos contados a bordo.

5 comentários:

  1. Lindo!!!!!!!!!!!! Muito bom!!!!!!!!!!!

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  2. "Todos os dias ele lhe estendia o braço, desafiando-a para um salto curto que a ela lhe parecia olímpico. E todos os dias ela hesitava um segundo, antes de saltar e sentir o braço dele a prendê-la com a mesma segurança com que amarrava e desamarrava cordas. "

    Bonito Mak... bonito.

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  3. Sera que o Mak é o "maroto" e o Sergio é Poeta? Surpreenda-nos (me) mais, por favor. Maravilha.

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