19.12.10

Chefs, mas pouco

Já ouvi muita história sobre feitos culinários de chefs de ocasião, homens pouco dados à cozinha que, por necessidade ou motivação inspiracional, se superaram na confecção de iguarias excepcionais que, no limite, não conduziram ninguém aos cuidados intensivos.

No entanto, não raras vezes, ouvi desdenhar de proclamados chefs que, gabando-se previamente dos seus feitos, não passaram depois do douradinho, do chamado bife da sola e do arroz tapa buracos. Nesses aspectos, recordo sempre uma história que me mostrou que a magia da cozinha às vezes reside apenas na forma como contamos as coisas.

Em tempos de universidade, um amigo convidou-me para ir jantar a sua casa. Apesar de não conhecer os seus talentos culinários, pensei que no limite iria safar-me com uma pizza ou não comprometedor. No entanto, não resisti a perguntar-lhe qual seria o prato principal.

“Ah, meu caro, é uma especialidade minha – salsichas recheadas artesanalmente”.

Desconfiado, perguntei “Define lá artesanalmente...”

“Então, é tudo preparado à mão, não há cá coisas de fast food. Depois logo vês”.

No dia combinado, lá fui eu, com um sorriso nos lábios, pastilhas digestivas no bolso e o INEM preparado em pré-marcação no telemóvel. Poucos minutos depois, descobriria o segredo das “salsichas recheadas artesanalmente”.

“Chegaste mais cedo. Estava agora a rechear as salsichas...”

“Posso ver essa iguaria em preparação?”

“Claro, entra.”

Lá o segui até à cozinha. Procurei salsichas frescas, um tabuleiro de carne e encontrei algo nobre – uma lata. O seu conteúdo, espalhado na bancada era agora rachado ao meio, pelo meu “chef” amigo, que a seu lato tinha o seu recheio “artesanal” - nada mais, nada menos, que fatias de queijo, daquele que tem a distinção de vir dentro de saquetas de plástico.

Aberta a salsicha ao meio, a fatia de queijo era aí inserida, para depois ir ao forno uns segundos. Tudo artesanal.

Do sucesso do prato principal não reza a história. No entanto, a entrada artesanal “barrigada de riso” permanece memorável até hoje. E, se até essa altura eu já tinha alguma desenvoltura na confecção gastronómica, a partir daí melhorei imenso numa especialidade culinária – temperar os pratos com os nomes mais absurdos que consiga criar. A partir daí, o céu da boca é o limite...

4 comentários:

  1. Achei um piadão à tua história e o final fez-me lembrar uma "modinha" brasileira que o meu pai costumava cantarolar e que dizia que "O que se leva desta desta vida é o que se come, o que se bebe e o que se se brinca..."
    (é claro que eu toda vida achei que este "brinca" não seria só sinónimo de "rir"...)

    «O Que Se Leva Desta Vida»
    Composição: Pedro Caetano

    O que se leva desta vida
    O que se come, o que se bebe, o que se brinca
    Ai, ai
    Ai como sofre um usurário que tem tanto que nem sabe o que fazer
    Como padece o coitadinho que se mata sem ganhar nem pra comer
    Eu nada tive, o que tenho nesta vida são as ruas pra andar
    O meu consolo é que essa gente que tem tudo no caixão não vai levar
    (Mas no caixão não vai levar)
    O que se leva desta vida
    O que se come, o que se bebe, o que se brinca
    Ai, ai...

    http://www.youtube.com/watch?v=DUkCEXgiGNk

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  2. Tão boa como a história do amigo de uns amigos, que os convidou para jantarem a sua "especialidade", arroz de lulas. ~
    Fez arroz branco, deslavado, e pespegou-lhe com umas latas de lulas de escabeche em cima... sublime!

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  3. A minha especialidade entao é lasanha no forno. Também faço no microondas mas no forno é que é mesmo mesmo boa.

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  4. Oh... de facto, é artesanal. Daqui a pouco trazia logo recheadas do talho e dizia que eram artesanais... dele.

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