12.11.10

V, de “Ainda há bilhetes para o Voyeurismo?”

Chateia-me um bocadinho esta história da trivialização do voyeurismo. De repente, olho para trás e vejo um paralelismo idiota entre o voyeurismo e o teatro de revista.
Antigamente, o teatro de revista era uma coisa valorizada, quer pela crítica de costumes, quer pelo facto de escassearem alternativas quer até pelo facto de, ao tempo da censura, ser uma forma de humor popular e ao mesmo tempo inteligente, gerando curiosidade em volta dos temas que abordava. Hoje em dia a revista sobrevive a custo, são grupos de reformados e gente de outros tempos aqueles que lhe vão dando uma réstia de público e o seu sentido como que se esvaziou. A crítica de costume, feita de forma inteligente ou mais apelativa, está difundida por uma variedade de meios e plataformas e o motor da revista, embora continue a ser a crítica, tem muito mais de boçalidade do que de desafiador e inteligente. A revista, pura e simplesmente já não é o que era e dificilmente voltará algum dia ao seu esplendor.

Já o voyeurismo, antigamente também tinha outro requinte. Faziam-se até bons filmes sobre isso e, apesar de ser algo que sempre existiu ao longo dos tempos, tinha assim um certo je ne sais quois que o seu próprio nome francês e a sua carga sexual lhe conferia. Mas, por ter esse ar elitista kinky e, ao mesmo tempo, estar ao alcance de qualquer um, existia uma certa reserva misteriosa sobre voyeurismo, mesmo aquele mais comum ao quotidiano.

Ditou a evolução do tempos que o voyeurismo se trivializasse, com o avanço das tecnologias e o refinar de certos aspectos das mentalidades. Do eixo televisivo que tornou a vida alheia cada vez mais um bem comum (reality shows e tudo mais e um par de botas), ao avanço das comunidades virtuais (Bloggers, Hi5, Facebook, etc) e até aos nossos gadgets (telemóveis que tiram fotos e filmam, entre outros), tudo isto contribui para que o voyeurismo seja o pão nosso de cada dia. Não só sabemos o que se passa na vida dos outros sem grande esforço, como temos vontade de nos expor (mesmo que em certas plataformas o façamos de modo mais ou menos anónimo).

Se em relação ao teatro de revista tenho uma opinião muito própria e definida – não gosto do que sobrevive porque é fácil e boçal (uma espécie de Malucos do Riso em palco), no que toca ao voyeurismo é difícil. É bom, é mau? Aproxima as pessoas, retrai aqueles que valorizam a privacidade? Terão as pessoas a noção das fronteiras?

Não sei e duvido que haja alguém que tenha já uma perspectiva clara do que será o futuro do voyeurismo enquanto ferramenta instituída ao nosso alcance. Mas no entanto, vou ali espiolhar uns perfis a ver se encontro a resposta no Facebook.


PS - Dúvidas sobre o paralelismo idiota? É natural.

1 comentário:

  1. Mak, nem de propósito!
    Após pensar que já tinha visto um pouco de tudo em transportes públicos, ontem, bem perto da zona onde costuma correr, filmei duas senhoras a descascar feijão verde no comboio. Dá para acreditar?!
    Se filmei? Ora, elas puseram-se a jeito Mak! Em fazendo questão, e mediante o pagamento de (vamos ver...) um pastel de cerveja, atrevo-me a enviar a pérola.

    Mantenha-se.
    Andreia

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.