30.11.10

A sobremesa - Parte 2

(se gostam de ler contos idiotas do início, é melhor voltarem um post atrás)

Um miúdo, de cara rosada e cabelo despenteado estava agora sentado à sua frente, com o peit gâteau e o seu companheiro bola de gelado a servirem de fronteira. Parecia não ter mais de 10 anos e usava uma camisa e pullover que se assemelhavam a um uniforme da escola e os seus braços estavam cruzados, como se à espera de uma reacçção dela. Falou, com uma voz de criança, que parecia ter um certo timbre de adulto.

“A senhora vai comer isso ou não?”
Surpreendida, respondeu atabalhoadamente “Bem...eu, não sei, talvez..”.
“Vai ou não vai? É que a minha avó diz que quem deixa comida no prato vai para o Inferno...”
O tom de voz dele, insinuante, ainda mais a atrapalhou “Pois...se calhar devia”.
“Mas, se calhar a senhora não quer ficar mais gorda...” aquele mais teve o efeito de uma pedra da calçada a bater-lhe nas costas “...mas eu posso ajudá-la. Eu fico com o bolo e assim a senhora não vai para o Inferno”. Sorriu, piscando os dois olhos.

Ela riu-se, dissipando algum nervosismo. Estes miúdos estão cada vez mais espertos e atrevidos, pensou. “Ok, pode ser que cheguemos a um acordo. Aonde está a tua mãe?”
“Ah, ela anda nas lojas lá em cima e eu disse-lhe se podia vir lanchar. Só que me esqueci de lhe pedir dinheiro e agora estou aqui à espera cheio de fome”.

“Tudo bem” disse ela, empurrando o tabuleiro do Petit Gâteau, aliviada por ter alguém a quem passar a tentação “Mas depois não vás dizer à tua mãe que andaste a comer porcarias, que ela ainda me bate”. Sorriu novamente, muito satisfeita com a sua piada.

O miúdo começou a comer sofregamente a sobremesa à colherada. Em menos de um minuto, tanto o Petit Gâteau como o seu amigo já não passavam de uma doce memória.
Ainda com os beiços cheio de chocolate, o miúdo sorriu de forma estranha.
“Oh, não, a minha mãe nunca diria que isto é uma porcaria. Creio que utilizaria mais a palavra veneno, pelo menos é o que ela costuma dizer-me. Nunca comas chocolate filho, que com a tua alergia isso para ti é veneno.”

O sorriso dela desapareceu de imediato “Mas tu és alérgico a chocolate???”. Calmamente, lambendo um dedo, ele sorriu novamente “Sim...ao mais alto grau. Começo a suar...”, conforme disso isto começou a tentar abrir um pouco do colarinho da camisola “...depois tusso...e finalmente entro em convulsões”. Mal acabou de falar, sempre a sorrir, contorceu-se de repente com violência, tossindo e começando a rodar o seu corpo em estranhos movimentos.

Ela levantou-se de imediato e olhou em volta. O tempo tinha passado e a zona de refeições estava agora praticamente vazia. Correu em direcção à entrada, onde estava um segurança.
“Por favor, venha comigo, há ali um miúdo que se está a sentir mal”.

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