8.11.10

Dependendo da independência

Olhou para a nota que pairava na mão esticada na sua direcção. O sorriso ao fundo do braço não enganava, aquilo tresandava a armadilha por tudo quanto é canto e, embora o seu instinto inicial fosse agarrar nelas e sair porta fora, deteve-se um momento.

“Então, toma lá, é para comeres qualquer coisa.” O sorriso mantinha-se e a nota abanava no ar, como que se o convidasse para dançar. Aquele senhor sabia muito, mas estava na hora de mostrar que também já tinha aprendido alguma coisa.
“Não posso aceitar. Já está na hora de ser independente...” A voz saiu-lhe ligeiramente arrastada, dando um certo tom de dúvida em relação à sua última palavra, algo que pretendia evitar.

O sorriso passou a gargalhada espontânea. “Independente? Muito me contas...E eu a achar que havia muito tempo para isso. Conta-me lá então, como planeias tu garantir a tua independência, pelo menos no que ao almoço diz respeito?”. Pousou a nota na mesa e bateu suavemente na cadeira ao seu lado, como que a convidá-lo a sentar-se.

Ganhou alguns segundos tirando a mochila das costas e ajeitando o cabelo. Pousou a banda desenhada na mesa e suspirou, sabendo que estava na hora de terem aquela conversa.
“Não posso depender do teu dinheiro para sempre, até porque sei bem que um dia isto me vai ser cobrado. Além disso, já tenho 11 anos e tenho de saber como gerir a minha independência.”

Enfrentou uma cara séria e percebeu que era melhor não sorrir “Certíssimo. Mas, tendo em conta que não queres dinheiro para almoçar na escola, devo deduzir que arranjaste emprego no refeitório?”

“Que tolice, mas eu por acaso tenho idade para trabalhar? A avó deu-me dinheiro e será em função dessas verbas que irei gerir a semana.” Os dedos batiam no tampo da mesa, como se estivessem a falar de evidências.
“Mas, em que é que o dinheiro da avó é diferente do meu? O dela é independente?” Ia começar a sorrir, mas a reacção dele fê-lo lembrar-se que a conversa era séria. “Não, é um subsídio a fundo perdido. Até porque confirmei junto dela e tu nunca lhe pagaste o dinheiro que ela te deu quando tinhas a minha idade.”

Silêncio.

“Ok, vejo que tens tudo planeado...Diz-me só mais uma coisa, ainda queres boleia para a escola ou devo pôr o taxímetro a contar?”
“Bem, vi na Internet e o que vamos fazer é carpooling e faz bem à ecologia e à economia. Por isso, quando eu for mais velho, levo-te eu a ti e deixo-te no jardim a jogar cartas com os velhotes.”

Sorriu, pegou-lhe na mochila, antes que ele também lhe dissesse que isso violava o tratado de independência. Arriscou mais uma pergunta:

“Bem, creio que por hoje, em termos de independência é tudo, não?”
Agora era ele que sorria, com a revista de banda desenhada nas mãos.

“Por agora sim. Depois, mais tarde, quando a mãe chegar a casa vamos falar da remuneração dos trabalhos de casa. Afinal de contas, se é formação profissional, devia ser paga...”

Conforme fechava a porta pensou que era melhor abraçá-lo rapidamente antes que, em favor da independência, as manifestações de carinho passassem a ter preçário.

2 comentários:

  1. Omiti o desastre de automóvel do parágrafo seguinte, para criar o envolvimento das pessoas.

    Isso e um futuro ligado às drogas...

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