3.11.10

15 minutos de autocarro à David Lynch.

Sentas-te num lugar individual, porque gostas de ir calmamente a ler um livro, sem ter alguém a espreitar por cima para ver o que lês e também porque as tuas pernas têm o comprimento necessário para poder agradecer lugares mais espaçosos.

Encontras um amigo teu que se senta no lugar individual à tua frente. Ao contrário do que é normal, depois de um primeiro cumprimento, ele não fica voltado de lado mas vira-se para a frente. No entanto, apesar de estar de costas para ti, continua a falar contigo. E a ti, que não te apetece levantar, continuas também a falar para alguém que está de costas.

No meio disso, as pessoas que vão entrando no autocarro, à primeira sentem-se na dúvida sobre se estamos a falar com elas. Depois, percebendo que está a decorrer uma conversa em que as pessoas não se encaram, desconfiam num primeiro momento, mas depois sentem-se tentadas a participar. E tu não gostas e sentes-te tentado a dizer-lhe para dizerem isso mesmo ao teu amigo.

Levantas-te para sair e estendes uma mão para a frente, para cumprimentar o teu amigo. Ele cumprimenta-te afavelmente e segue caminho. Quando estás prestes a sair, grita-te uma piada sem se voltar.

Sais e ficas a pensar se isto era para os apanhado do David Lynch.
Beliscas-te e ficas incomodado. Não gostas de ser bruto contigo próprio.

1 comentário:

  1. Ah, mas isso é mais frequente do que pode parecer. Uma vez aconteceu-me algo assim, mas para pior, ou seja, a minha conhecida falava incrivelmente alto e gesticulava com uma expressividade exaltada. Eu fazia-me mais pequenina, no banco atrás, dizendo o mínimo, para não parecer completamente antipática (à conhecida) e doida (ao resto das pessoas). E também ela me gritou qualquer coisa quando eu saí. Acho que não era uma piada, ou se calhar era, e eu não percebi.

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