27.10.10

O mistério do autocarro sisudo

Não se deu conta do que estava a fazer quando se preparou para entrar no autocarro logo de manhãzinha. Aliás, só se apercebeu que algo se passava quando motorista carrancudo lhe rosnou que tinha que validar o passe na máquina, o que até poderia ser normal, não fosse o caso dele ainda estar do lado de fora do autocarro.

Entrou, validou e avançou, ao som de um “Hummm” desagradado do motorista. Sentou-se num lugar individual, em frente de uma velhota cujo suspirar anunciava uma certa vontade de conversar. Mas, mal começou “Não queira saber...”, ao fixar-lhe o rosto, a velhota calou-se, cerrando os seus finos lábios com um impulso rancoroso. De seguida fez algo que ele nunca tinha visto uma velhota fazer, levantou-se do lugar e ofereceu-o a uma jovem estudante, acabada de entrar.

Passou as mãos pelo rosto, para ver se tinha alguma migalha do pequeno almoço, pasta dos dentes, ramelas ou qualquer outra coisa que fosse estrana. Não encontrou nada. Olhou a sua nova companheira de viagem, possivelmente uma jovem universitária, ensonada, agarrada ao telemóvel como a única tábua de salvação, teclando furiosamente. Ela levantou os olhos, encontrando os seus a meio caminho e fez uma careta dissimulada, como quem prova algo demasiado ácido. Voltou a teclar furiosamente, afundando a cara no meio dos cabelos compridos.

Não sabendo se deveria rir ou começar a ficar preocupado, levantou-se para dar lugar a uma senhora que se aproximava com um ar cansado na cara e um filho pequeno pela mão. “Obrig...” a mãe interrompeu o agradecimento ao fitá-lo e terminou-o com um aceno rápido, enquanto virava o miudo para a janela, de maneira a que este não o visse “Vá, não fiques a olhar para o senhor, nem toda a gente é assim” ouviu ele enquanto se encaminhava para a porta de trás.

Entre ele e a porta de saída estavam dois homens engravatados de pé, um deles submerso na música do seu mp3, o outro nas notícias financeiras do jornal. Ao seu “Com licença” reagiram como se tivessem ouvido “Tenho Peste Negra, posso dar-vos um abraço?”. O dos headphones olhou-o e desviou-se com um desprezo agravado, que ele pensou dever-se ao facto de não estar a usar gravata. O outro atrapalhou-se, deixou cair o jornal e fez um golpe de contorcionismo para, no mesmo movimento, o apanhar e voltar-se de costas de forma a não estarem face a face novamente.

Finalmente, estava frente à porta de saída do autocarro e foi aí que reparou no seu reflexo – Estava a sorrir. Era o mesmo sorriso que tinha no elevador quando saiu de casa e que viu na porta do autocarro, segundos antes de entrar. Tinha-se esquecido completamente de o tirar.
Conforme as portas da saída se abriram, voltou-se para trás como que para pedir desculpa. Percebeu que era tarde demais, já todos lhe tinham voltado costas ou desviado o olhar, não fosse a coisa ser contagiosa.

Saiu e parou uns segundos na paragem para colocar o sorriso matinal no bolso. Era melhor guardá-lo até chegar ao trabalho, não fosse alguém estragá-lo de propósito.

2 comentários:

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