29.9.10

Uma História pseudo-histriónica com H

Chegou à porta do seu prédio decidida e, nos últimos tempos, era raro isso acontecer. Cada vez que metia a chave à porta o desânimo multiplicava-se por mil e um factores diferentes e as noites iam ficando mais iguais o que muito lhe custava, mas estoicamente ia suportando.

Mas hoje, hoje ele ia ouvi-la e a noite ia ser diferente. De uma maneira ou de outra.

Segundos antes, cada degrau subido serviu para repetir para si mesma conselhos sobre como resistir às manhas dele. Mordeu os lábios, abriu a mala, à procura das chaves e pensou “E que bela peça tenho eu à espera”.

Abriu a porta e foi até à sala. Que novidade, lá estava ele estendido no sofá, como se na sua vida isso lhe bastasse para se sentir feliz. Para ela, não chegava.

“Alfredo, temos de falar”.

Silêncio.

“Estou a ver...EU é que vou ter que falar, porque para ti, entrar mudo e sair calado, desde que haja comida na mesa chega perfeitamente não é?”

Alfredo levantou um pouco a cabeça, como se só reagisse à palavra comida. Compôs-se um pouco no sofá.

“Avisaram-me, olha que ele é difícil, egocêntrico, primeiro vai seduzir-te e depois de te ter nas palminhas, vai tratar-te como uma criada. Mas não, eu não quis acreditas e nós nem sempre fomos assim Alfredo. Tu não eras assim.”

Alfredo fechou os olhos, como se buscasse paciência, abrindo-os logo, não fosse ela pensar que era sono.

“Eras cortês e disponível, tinhas sempre um gesto para mim, apoiavas-me quando precisava e...nessa altura, eu tinha a certeza que tinha lugar no teu coração. Agora, às vezes nem tenho a certeza que tenhas coração...”

Alfredo levantou-se, com uma expressão estranha. Abriu a boca e ela olhou expectante. Não lhe saiu nada.

Ela esperou mais uns segundos, com uma lágrima a correr-lhe pela face. Alfredo olhou-a intensamente e voltou a esboçar um gesto, abrindo a boca, mas ficando mudo.

“Tudo bem Alfredo, eu esforcei-me, mas sabes, já percebi que contigo não vale mesmo a pena. O mais triste é que tu, pura e simplesmente, não percebes que sem mim não consegues sobreviver”.

Alfredo pareceu perturbado e, por instantes, ela viu-o tremer. Desta vez ele não ia ficar de boca fechada a olhar para a janela. E, de facto, tinha razão. Alfredo abriu e fechou a boca várias vezes, com barulhos estranhos, mas não disse nada de jeito.

O único resultado dessa conversa foi a bola de pêlo que ele projectou para o chão da sala.

Limpando as lágrimas, voltou-lhe as costas enraivecida “Gato velho e estúpido, já não tenho idade para estas merdas”. E, tirando a dentadura, lá foi ela até à casa de banho para a colocar num copo de água. Dois ou três dias sem ração e aquele insensível até ao cinema a ia levar.

5 comentários:

  1. Mais um "conto do imprevisto" impagável. Um dos que mais gostei. Excelente, de início ao fim e suscitando uma segunda leitura para mais nos deleitarmos.

    ResponderEliminar
  2. Ahahah, muito bom! Gostei :)

    ResponderEliminar
  3. Acho que começo a conhecer o teu modus operandi dos textos imprevisiveis.

    "Abriu a porta e foi até à sala. Que novidade, lá estava ele estendido no sofá, como se na sua vida isso lhe bastasse para se sentir feliz. Para ela, não chegava."

    Percebi, no paragrafo transcrito, que se tratava de um gato.
    Os meus botões ainda me gritaram que isso era o que tu querias que nós pensassemos e que ias distorcer tudo no final. mas, afinal não. era mesmo um gato.
    Ah! Gostei do pormenor da dentadura :)

    ResponderEliminar
  4. O truque é sempre deixar o leitor ficar com a clara sensação que é inteligente.

    Depois é só separar a ficção da realidade :D

    ResponderEliminar
  5. A inteligência depende do momento, do que se quer ler e do que apetece ouvir. Há dias que ser intelegente demonstra uma enorme burrice.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.