23.9.10

D de Desfasado

Há um desfasamento entre ao valor comum dada à palavra desfasado e o meu entendimento da mesma, já que o desfasado da realidade é, muitas vezes, olhado de lado por aqueles que vivem escravos da realidade. Que não se entenda por isso que a realidade é uma coisa má, afinal de contas é nela que podemos comer gelados, ir passear junto à praia ou atirar pedras a janelas de gente de quem não gostamos. Simplesmente, há uma diferença entre “viver com” e “ser escravo de”.

Por outro lado, o apelo de um certo desfasamento da realidade não tem que ver com uma fuga amedrontada da mesma, para um mundo onde somos nós que ditamos as regras, onde tudo é perfeito e as coisas más são como as senhoras que nos querem dar uma palavrinha sobre Deus – vulgo, ficam à porta. Isso não é desfasamento, é uma condição clínica e neste blog não existem pessoas doentes ou, se existem, estão em fase de negação.

O desfasado da realidade, em pleno equilíbrio, é como aquela pessoa que já bebeu um bocadinho, mas ainda não está a tentar correr toda nua por uma das avenidas da cidade. É a pessoa que, por exemplo, consegue sair da sala sem ter de sair do sítio, que pode perceber tudo o que lhe dizem, mas gostar muito mais de imaginar o que fica por dizer. É todo aquele que vive contente com o que tem, mas usa a sua imaginação para criar muito mais do que aquilo que alguma vez podia vir a ter.

Ser desfasado não é um problema, não é uma vantagem, não é uma obrigação, não é sequer algo que se ligue e desligue quando apetece. É um traço, que faz parte de um quadro bem maior. Mas é um traço que quem gosta que 1+1 nem sempre tenham que ser dois, aprecia, tal como aquele personagem secundário daquele filme, que poderia passar tão despercebido, não fosse nós gostarmos tanto dele.

Obviamente, sou parcial. É um part-time que me ocupa, quando a realidade me dá umas folgas.

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