27.9.10

A correr, a vida pode passar-nos em frente dos olhos.


Desconheço a veracidade do mito que diz que a vida inteira nos passa diante dos olhos em situações de risco/morte eminente. Também não me parece que tenha grande interesse em comprová-la nos próximos 50 anos, até porque já tenho planos para ir ver os Jogos Olímpicos de 2060.

Mas, ao correr, fui presenteado com um desses filmes e não quero com isto dar a entender que quase foi preciso um reboque do INEM depois de percurso de Domingo. Talvez tenha sido do facto de ter ido sozinho, com uns pozinhos de banda sonora maravilha à mistura e um início de dia de Outono em que o Sol faz companhia aos que se despediram mais cedo das suas almofadas. Na realidade não sei bem o que foi, estava lá para correr e não para filosofar. Mas, dados os primeiros passos, já a Torre de Belém ficava para trás e resmas de episódios do passado se revelavam à minha frente.

Cresci nesta zona de Lisboa e quis o destino que boa parte do meu percurso (Torre Belém – Cais do Sodré – Torre de Belém) coincidisse com um outro percurso que tão bem conheço - o da minha vida. E foi, em pouco mais de hora e meia, que desfilaram memórias de anos.

Não faltaram recordações dos primeiros pontapés na bola, na Torre de Belém, das voltas de bicicleta no jardim em que hoje está o CCB e passando também pelas visitas ao Planetário e ao Jardim Ultramarino com a escola. Do salão de jogos das escapadinhas no Secundário, aos diálogos pseudo-romântico-juvenis junto à Estação Fluvial de Belém até ao palácio cor-de-rosa feito Universidade. Da pesca feita diversão na zona de Alcântara, às primeiras visitas nocturnas às então recém-estreadas Docas, para outro tipo de diversão (e, para alguns, outro tipo de pesca).

Mais uns quilómetros, mais uma música, um sorriso que não condiz com o suor e Santos ali ao lado. Ainda se ouve, na minha cabeça, todo um conjunto de sessões transcendentais na Barraca / CineArte com os Irmãos Catita no palco, levadas tradicionalmente até ao raiar do dia. Aceno de cabeça ao Cacau da Ribeira, obrigado por todas as vezes que me recebeste, nem sempre estando eu na plenitude das minhas capacidades, mas sempre com uma fome que me ultrapassava.

Já no Cais do Sodré, junto aos barcos, é hora de voltar para trás. Ordens para os pés, já que a cabeça vai mais à frente e até já se despediu de tantas combinações feitas ao pé da estação dos comboios. A música não pára, o ritmo vai-se aguentando e há um historial de concertos vividos na zona ribeirinha que ajuda à festa. Olha, ali nas Janelas Verdes, lembras-te daquele almoço épico? Lembro pois, mas agora tenho de ir, ali à direita naquela direcção fica o Largo do Calvário e ali perto ficava o cinema Las Vegas, com um nome mais memorável do que os filmes que lá vi.

A Rua da Junqueira anuncia Belém e é uma via rápida de memórias, mais rápida do que a minha sombra que, ainda assim, não desanima na marcha. Pisco o olho à Calçada da Ajuda, tantas vezes subida e descida por motivos, companhis e horas completamente diferentes. O tempo passa a voar, mas davam jeito umas asinhas para aligeirar o percurso, já que uns pastéis de cerveja ou de Belém não são recomendados para uma ponta final que se quer lesta.

Tão lesta como era preciso ser para “andar na penda” do eléctrico, especialmente evitando a esquadra da polícia em Belém que, felizmente, nunca soube das pedras atiradas ao edifício abandonado que agora virou hotel junto ao Padrão dos Descobrimentos. Pronto, já passou, já chegaste à Torre de Belém, que está agora plena de turistas, porque há coisas que nunca mudam.

Vai lá até à Docapesca, só para teres tempo de fazer uma conclusão e acertares os 16km. E lá fui, pensando que eu também mudei, já não vou tanto a esta zona como antigamente, o que é pena, mas não é muito grave. Especialmente, se continuar a bastar uma corrida assim para a voltar a sentir como minha.

Felizmente, também há razões para sorrir quando a vida nos passa em frente dos olhos.

4 comentários:

  1. A nostalgia é fodida. Quando um gajo começa a recordar as bebedeiras monumentais do Gonçalves com saudade...

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  2. Eu joguei às damas e venci o gajo. Pelo menos eu acho que aquilo eram damas, já o Gonçalves tenho a certeza que pensava que eram tremoços.

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  3. Tens a noção que isso é o mesmo que te gabares de vencer 100 metros barreiras ao stephen hawking?

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  4. Esse cromo nunca me deu a desforra...

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