23.8.10

Um velho, um banco e uma história

Estava o velho sentado no banco, no seu banco, aquele banco ao qual moldara as suas costas, tal como tinha moldado as árvores do seu jardim. O velho não se sentava ali para passar o tempo, mas sim a tentar ver se o via a passar. Tinha tanto para lhe dizer e o seu próprio tempo já não abundava para gastar.

Chegou o jovem, que era mais jovem por se estar a sentar ao lado de quem era efectivamente um velho e sentou-se no seu banco, pensava ele, mas que afinal era do velho.

“Ah jovem...” começou o velho “...se este banco falasse contava-te umas histórias bem melhores do que aquelas que eu tenho para contar”. Não era a primeira vez que começava uma história assim, mas o jovem tinha ar de vivaço e havia que impressionar.

“Nem precisava” respondeu o jovem a sorrir, como se já tivesse topado o velho “Porque hoje dou-lhe eu uma folga, porque tenho uma história para lhe contar”. O velho abriu os olhos espantado e teria franzido a testa, se os sulcos na sua cara não fossem já por demais carregados.

“Neste banco e neste jardim, as histórias costumam ser de quem já cá está há mais tempo...”

“Pois é avôzinho, mas isto só existe porque fui eu que criei tudo, incluindo este diálogo”
O velhote abriu a boca, mas nem um som saiu à primeira. Finalmente recuperou

“Mas querem lá ver o gaiato! Bateste com a cabeça ou....”
“...depois destes anos todos veio calhar-me Deus ou Jesus aqui ao banco”. Foi o rapaz que completou a frase, para um tal susto do velho, que teria caído se não tivesse já sentado.

“É como eu digo avôzinho, tudo isto só existe porque eu criei as coisas assim e este diálogo não vai ser sobre uma história interminável que um ancião como tu tem sempre para contar”.

“Não vai?” O velhote era um misto de espanto e arrelia “Então vai ser o quê?”

“Vai ser uma história sobre mim. Mas, se me conhecesses, isso nem era preciso perguntares. Saberias que eu gosto de dar uma volta maior, quando podia ir directo ao assunto”.

“Mas então estou aqui a fazer o quê?” O velho parecia agora uma criança impaciente. O rapaz colocou-lhe a mão no ombro, sorrindo novamente.

“Estás aqui para enganar as pessoas. Para que aquelas que não tiverem paciência de ler tudo não percebam que isto tudo é uma maneira muito retorcida de dizer que hoje é quase feriado nacional, porque é o meu aniversário. E que quando eu faço anos, eu crio bancos, jardins, velhos e histórias idiotas só para tornar isso lícito. Percebes agora?”

“Percebo” era o velho que sorria “Percebo agora que és parvo e que é por causa de jovens como tu que este país não vai a lado nenhum. Mas isso tu também já sabias não é?”

“Claro avô Cantigas e é por isso que eu gosto de ti. Não só porque és o meu personagem de aniversário, como bem podias ser eu daqui a 30 ou 40 anos”.

O velho fez-lhe um manguito e levantou-se. Ele que fosse celebrar para o raio que o parta, em vez de ir para ali ocupar o seu banco.

E assim fui.

19 comentários:

  1. Só te digo que tens imaginação... ;-)

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  2. Caramba! :o
    Isto parece um dos contos do Alfred Hitchcock. :o

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  3. Parabéns!!! :) Muita saúdinha, anh?

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  4. Tu és mau, mas um mau divertido e, diria até, encantador.

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  5. Muitos Parabéns!!

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  6. Então depois conta como era o "Raio Que o Parta".
    Parabéns

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  7. É sempre um prazer ler histórias sobre pessoas decrépitas e carrancudas sentadas em bancos de jardim. Ah, e o velhinho também parece simpático.

    Parabéns, pá. :)

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  8. Repi barceday, bedeboi! Ior a fani gai. Teique quer.

    maria s

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  9. nao sabia que esse rapaz também fazia anos. Ha coisas do diabo...
    Ainda assim, parabéns para a personagem ;)

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  10. Exímio uso da palavra "arrelia".
    Parabéns Mak!

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  11. Parabéns, Mak. Que continues a fazer muitas destas e boas!

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  12. Parabéns Mak. Quando for grande quero escrever como tu, num banco de jardim qualquer :)

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  13. Os meus votos de um dia muito feliz e boa comemoração da existência ... que contes muitos mais anos a esfregar o rabo nos bancos de jardins ...:)

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  14. Se ao argumentista cabe o papel de deus, claro que o dia do seu aniversário é natal. Parabéns, Mak.

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  15. Parabens aqui da terra do Chaparro de Ferro!

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  16. Obrigadinho a todos, sim.

    E um grande bem hajam pelo vosso bom gosto em parabenizar-me.

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  17. O parece-me que o senhor Mak tem magia nos dedos.

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