3.8.10

Se dormes nos transportes, é bom que saibas onde acordas

Conheço gente capaz de adormecer nos transportes ainda antes de entrar no autocarro. Aliás, conheço gente capaz de adormecer só de pensar em autocarros, comboios, barcos ou mulas. Na verdade, conheço gente muito estranha, mas é a única forma de ter vida social.

Já eu, sempre vi nos transportes uma fonte de inspiração, histórias, animação e odores suficientes para mais tarde recordar. Já para escapar a assaltos, sempre confiei muito mais na minha prestação como sprinter. Mas, ao longo dos tempos, sempre tive como símbolo do facto de ser um duro, o facto de nunca adormecer nos transportes. Eu sei, o padrão é baixo, mas é o que se arranja.

Nascido e criado dentro das fronteiras de Lisboa, não fazia longas viagens na Rodoviária e afins para aquela santa do assobio, e as minhas incursões na Rede da Madrugada sempre foram pautadas pela decisão sábia: “Se te vires a falar com a paragem e estiveres sozinho, então vais de táxi”. Até que chegou um dia, em que o cansaço venceu o regabofe e, depois de já ter provado ser um bípede nocturno experiente, vi-me numa paragem da rede da madrugada às três da manhã, com um autocarro a chegar, que dava para mim.

Começo por vos dar uma noção geográfica, caso tenham dificuldades na matéria. A Ajuda e a Madre de Deus ficam em zonas quase opostas da cidade de Lisboa. Eu entrei sensivelmente a meio do percurso, na direcção Ajuda e adormeci sensivelmente a meio do percurso, na direcção Ajuda.

Faço agora um compasso de espera, só para vos causar danos emocionais. “Terá sido violentado por um grupo de modelos checas que quis conhecer os transportes à noite?”, “Terá feito no motorista um amigo para a vida, tendo inclusive conduzido o autocarro?” ou “Terá levado um enxerto de porrada à moda antiga e deixado todo nu junto à Fonte Luminosa?”.

Deixem-se de histórias, que para ser ridículo já basta o autor. Indo eu na última fila do autocarro, como qualquer bom mitra, dei por mim deitadinho em três bancos ao acordar e estávamos em movimento. Levantei-me, para ver onde íamos, e era exactamente o mesmo sítio onde tinha apanhado o autocarro. Ah, adormeceste só uns segundos, meu malandro. Pensei isso mesmo, até olhar para o relógio e ver que eram cinco da manhã.
Confesso que suei um pouco do bigode, não tendo bem a noção do que se tinha passado. O motorista era o mesmo, mas não se lembrava de nada, a não ser que estava a acabar o turno e não lhe apetecia muito divagar com um desfasado. Tive eu de fazer as minhas próprias contas, confiando também no facto de não ter sido molestado por extraterrestres.

Entrei no autocarro, adormeci, escorreguei nos bancos traseiro, o bus foi até à Ajuda, como não devia ter mais ninguém e eu não era visível pelo espelho, o motorista deu a volta sem fazer a vistoria. Fizemos o percurso todo de volta até à Madre de Deus, onde aconteceu exactamente o mesmo. Voltámos para a direcção Ajuda e só então a Bela Adormecida acordou.

A partir daí, nunca mais gozei com quem dorme nos transportes. Dou-lhes apenas um abraço quando acordam e digo-lhes “Descansa peregrino, estás exactamente onde é suposto estares”.

17 comentários:

  1. Antes isso do que ficares perdido no meio da Polónia porque acordas de um sono solto, olhas para a janela e confundes Wroclaw com Warszawa.

    ResponderEliminar
  2. e melhor ainda quando adormeces estafado,após uma noite inteirinha de forrobodó e acordas supostamente na margem errada do rio (porque te enganas no bus), sem trocos nos bolsos, batôm borratado e sem bateria no telemóvel. isso sim é que é bom. acordar e fazer o Douro todo a pé.

    ResponderEliminar
  3. Felizmente, nunca adormeci num autocarro para a Polónia ou, pior ainda, Galinheiras.

    ResponderEliminar
  4. @ Foxy - Douro a pé ou a nado?

    ResponderEliminar
  5. Oh Mak, mas então tu adormeces assim no 42??
    Provavelmente a pior "carreira" da cidade?
    Sorte a tua não te terem despejado no Casalinho, ou pior, aqui mesmmo à porta do palácio ;)

    ResponderEliminar
  6. @ Cat - Não será a pior carreira, mas é uma das mais extensas e pitorescas que já frequentei repetidas vezes.

    E, se me despejassem na Meia Laranja podia ser pior...

    ResponderEliminar
  7. Mak.. douro a pé. também temos marginal (parece impossivel mas é bem verdade) ;P

    ResponderEliminar
  8. E eu que orgulho-me de ser ainda das duras...no currículo permanecem zero horas dormidas em carreiras periféricas e centrais,nos carris ou em paralelos...já nas viagens à santa terrinha cedi 2 vezes ao sono..não percebo como aconteceu, apesar da noite em branco, 3 horas a ver paisagem a passar era um filme de acção..

    ResponderEliminar
  9. Infelizmente vejo nos transportes gente demasiado feia e com mau aspecto para conseguir dormir uma sesta.

    ResponderEliminar
  10. Menino.

    Ir da Santa Terrinha para a Capital e acordar em pleno alentejo? Isso é que é de ... menino.

    ResponderEliminar
  11. Ora até que podias aterrar na Maria Pia... Bem animadita, essa viagem nos anos 80.

    ResponderEliminar
  12. Estou a ver que este blog é um refúgio de narcolépticos é o que é...

    ResponderEliminar
  13. neste momento estou narcoleptica ao quadrado.

    penso que o mesmo não se aplica ao periodo da noite, mas isto sou eu, que vai na volta e julga que a Narcolepsia só se aplica ao periodo diurno. (assim à parva)

    ResponderEliminar
  14. Nas minhas viagens de estudante a caminho de Coimbra, um senhor adormeceu ao meu lado e levei com a cabeça dele no meu ombro, durante alguns minutos. Só acordou quando lhe empurrei a testa, com um dedo!

    ResponderEliminar
  15. Quando estudava aprendi a dormir em pé no comboio e a acordar quando estava a chegar à estação onde tinha que sair, sempre eram 20 minutinhos!

    ResponderEliminar
  16. Eu já acordei no parque de recolha dos STCP. Hora e meia depois de ter entrado no autocarro. E acordei porque o motorista ria-se muito alto. A olhar para mim. Estúpido.

    ResponderEliminar
  17. Acho importante referir que no Japão, adormece-se por tudo e por nada. Eles vão nas escadas rolantes de um centro comercial e tumba!, a cabeça tomba. Mais curioso ainda é que quando vão no metro, os japoneses já antevendo a soneca que vão tirar durante a viagem até ao trabalho, armam-se de uma placa aos pescoço dizendo:
    "Por favor, acorde-me na estação xxxxx".

    O mais engraçado de tudo é o acessório que usam à volta da cabeça, com uma ventosa presa à janela, para que a cabeça não tombe.

    Portanto, toca a aprender com os nipónicos. :)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.