24.8.10

A prenda

Olharam uns para os outros. A pergunta não tinha sido assim tão difícil, mas o problema era mesmo não saberem responder.

“De quem é esta prenda?”

Só quando ele a mencionou é que o embrulho pareceu materializar-se naquele canto da mesa. O papel era de boa qualidade e parecia reflectir tudo à sua volta, como se estivéssemos na presença de um cubo espellhado. Não tinha cartão, não tinha laço e, agora que o tinham visto, só parecia existir ele.

“Então, ninguém se acusa?” Olhou em volta e, entre família e amigos, uns encolhiam os ombros, outros sorriam, mas ninguém respondia.

O bolo chegou à mesa. As pessoas começaram a elogiá-lo, que tinha um ar delicioso, se era caseiro, completando com uma ou outra piada de ocasião. Mas, na mente de toda a gente, continuava a ser aquela prenda o centro das atenções.

“Alto aí. Ninguém come o bolo enquanto não resolvermos isto. Aliás, nem sequer ninguém lambe o bolo, portanto vamos com calma”. A sua curiosidade era superior à sua fome.

“Aquela prenda não estava ali ontem e se hoje está, é porque veio com alguém. Sabem bem que não gosto de brincadeiras, por isso é só dizerem de quem é, que damos continuidade à emissão”.

O silêncio era constrangedor. Era só uma prenda mas, ao mesmo tempo, não era só uma prenda.

Levantou-se do sofá e agarrou no embrulho. Era mais pesado que ele pensou. Dirigiu-se à janela.

“Última oportunidade, vá. Senão vamos ver se a prenda, para além de anónima, sabe voar”.

“Epá, deixa-te cenas” foi um dos seus amigos que falou “Se calhar foi de alguém que já saiu...”

“Não, não saiu ninguém ainda” Abriu a janela.

“Então abre e pronto, acabou-se” A sua prima era sempre muito impaciente.

“Sabes bem que eu não abro prendas sem saber de quem são. Pelo menos desde....”

Todos sabiam desde quando. E nunca se iam esquecer.
“Ok, se ninguém se acusa, vai ser assim”. Colocou o embrulho de fora, certificou-se que não ia ninguém a passar e, sem mais, deixou-o cair antes que alguém pudesse voltar a falar. Voltou as costas à espera de ouvir um baque.

Não se ouviu nada.

Alguém se debruçou na janela “Eish, não está lá nada”. Mais umas pessoas foram até à janela, com ar espantado.

“Bem, vamos então ao bolo”. A voz dele soou com algum nervosismo. Todos se juntaram à sua volta, prontos a cantar os parabéns.

“Paaa-raa..b....” A campaínha tocou.

“Um segundo, um segundo” Devia ser ela, atrasada como sempre. Correu até à porta, pois o toque tinha sido já cá em cima e abriu.

Ninguém.
Tirando um embrulho quadrado, com bom aspecto, que parecia espelhado.


PS - Baseado vagamente no aniversário de alguém conhecido. Pelo menos a parte dos mortos de fome.

7 comentários:

  1. Mak,

    penso que querias dizer "sido cá em cima o toque". ;)

    (tive que ler umas quantas vezes e reflectir o que é que a sida tinha a ver com a prenda de anos até perceber que se calhar era mesmo uma gralha...)

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  2. gralha das brutas.

    Obrigado e corrigido :)

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  3. (dizem que é um esquema, depois venho cá vender a continuação)

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  4. Mak, então ias cortar o bolo, cantar os parabéns, sem ela ter chegado??

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  5. Quem, a tia-avó com Alzheimer? Sabia lá se ela se lembrava...

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