25.8.10

A parábola do pastor, das ovelhas e dos Savage Garden

Malaquias era um pastor da nova geração. Ou seja, fazia tudo o que os pastores do antigamente faziam, com duas diferenças – usava um leitor de Mp3 para ouvir música enquanto pastava ovelhas e tinha a mania que, como era novo, sabia muito mais da vida de hoje do que os pastores de antigamente. “Ah, antigamente era uma coisa, agora é outra, que me vão eles ensinar sobre o pasto que eu não aprenda na Internet?” Essa sobranceria e gostar de êxitos dos Savage Garden eram os seus maiores defeitos.

Talvez por isso, naquele dia, tenha feito orelhas moucas ao que lhe diziam os antigos. “Não vás pastar para a beira da estrada nova moço. Saem-te as ovelhas para o meio da estrada e ainda lá vem carro de fora que te faz estrago nos animais e mossa maior na bolsa do teu pai”. Ora, muito gostava aquela gente de agoirar, além disso aquele pasto ficava mais perto de casa e hoje ele ainda queria ver os Morangos com Açúcar.

Foi para lá que foi e enquanto as ovelhas pastavam, várias foram as vezes em que ouviu “Truly, Madly, Deeply”. Até que, do nada, ouviu um chiar de pneus intenso e um baque. Voltou-se e correu para a estrada, adivinhando o pior. “Ai meu Deus, as ovelhas”.
Ao chegar lá viu três ovelhas estendidas sem vida e, 200 metros mais à frente, um carro parado.

Cheio de raiva misturada com culpa, Malaquias cerrou os punhos na direcção do carro e gritou “Que mal é que os bichos vos fizeram hein? Cheios da pressa, cheios da pressa e agora, como é que é? Não querem saber, não é. Bandidos!”.

O carro engatou a marcha atrás e as luzes acenderam-se. Começou a recuar, primeiro lentamente, depois mais rapidamente. Só quando percebeu que não iam travar é que Malaquias se atirou da estrada para a ligeira encosta ao lado. Ainda estava a rebolar, quando ouviu a mala do carro a ser aberta. Levantou-se, dorido, e correu novamente para a estrada. Os corpos das ovelhas já não estavam lá e o carro arrancava lentamente.

“Matam-me as ovelhas e agora levam-nas meus patifes! Venha cá, que eu faço-vos o mesmo, meus medrosos de merda”. O carro seguiu imperturbável.

No meio da estrada, Malaquias continuava a gritar, amaldiçoando a sorte e tudo à sua volta “Isto é que é uma parábola? Matam-se assim ovelhas do nada e ainda por cima roubam-nas? Tudo porque escolhi ser diferente? Que bela moral há de ter esta história”.

Todo sujo e esfolado, ainda com os headphones nos ouvidos, Malaquias parecia um louco e o refrão de “Truly, Madly, Deeply” era a única coisa que se ouvia pelo meio dos seus gritos. Talvez por isso, Malaquias não tenha ouvido o carro dos Bombeiros Voluntários de Riacho Gordo que, não tendo tempo de travar logo depois da curva, só viram um pastor a gesticular no meio da estrada e depois a voar por cima do carro. Cinco meses depois, ainda Malaquias comia a sopa por uma palhinha e via os programas da manhã na televisão portuguesa.

Moral da História – Todas as merdas que te acontecem podem sempre piorar, não só por teres a mania que és esperto, mas especialmente se ouvires Savage Garden.

6 comentários:

  1. Eu quando era nova ouvia Savage Garden. Agora fiquei preocupada.

    (já agora, eu sei que o autor deste blog deve gostar muito de moças, mas no caso queria dizer "mossa" - a não ser, claro está, que quisesse uma moça na carteira do pai, aí nada contra, cada um sabe de si)

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  2. Falei em Savage Garden e fiquei perturbado.
    Done deal, thanks.

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  3. Savage Garden e Morangos com açucar são uma combinação fantástica. Só merecia mesmo acabar a ver os programas da manhã da tv. Tu és do pior, caro Mak :)))

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  4. "I would fly to the moon and back if you be... If you be my babyyyyyyy" (cantarolar com ar sofrido)

    Foram tempos negros. Eram os Savage Garden e os Onda Choc ("Ele é o Rei..iei..iei...").

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  5. Savage garden está para a música como Nickelback está para a música.

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  6. acabei de morrer a rir.
    Por acaso sempre me enjoaram esses jovens xD

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