31.8.10

Os factos da história dos fatos

Quis o destino que eu tivesse uma educação liberal. Quis também o destino que a minha formação académica e o meu encaminhamento profissional derivassem para longe de ambientes formais e protocolos fastidiosos.
Não quis tanto o destino, mas quis eu que se gastasse boa parte do palavreado logo no primeiro parágrafo para ficarem logo de papo cheio.

Estava eu ontem a fazer uma ronda de vestuário e descobri, escondidos a tremer de medo, os meus dois únicos fatos completos, que datam do Ano da Graça do Senhor de para aí uma década atrás. Tinham um ar limpinho e quase novo, de tão pouco uso, mas ao mesmo tempo tinham um ar datado daqueles filmes de gangsters algo duvidosos.

E de repente, lembrei-me (reproduzam isto numa voz ligeiramente surpreendida, mas sem saudosismo exagerado) "Ah pois foi meu madraço, houve um curto período da tua carreira, em que não era esta rebaldaria e até ias trabalhar de fatinho de quando em vez".

Pois é, houve um tempo em que idosos e senhoras respeitáveis olhavam para mim na rua e diziam "Deve ser bom moço de certeza e um profissional de excelência", enquanto eu sorria e pensava "Esta p#$% da gravata já me está a dar uns calores e ainda são só 9.30". Durante quase um ano, sempre que reuniões externas assim obrigavam, aqui o artista revezava os seus fatitos, escolhendo gravatas altamente idiotas como forma de protesto.

Mas, a coisa não podia durar. Os fatos queriam alguém estável e orientado para resultados mensuráveis. Eu gostava de inventar e correr riscos e sabia que a coisa era temporária, apesar de ter capacidade para o que fazia. Por isso, quando a oportunidade se proporcionou, tive uma conversa com os fatos e expliquei-lhes que iam passar os próximos 10 anos num armário, saindo apenas numa eventualidade, mais de palhaçada do que de trabalho. Não gostaram mas, sendo fatos, seguiram as regras de etiqueta.

Ontem, ao verem-me, tiveram ainda alguma esperança, quando me ri para eles. Segundos depois, estavam num saco, para beneficiar alguém necessitado que não tenha medo de parecer um Al Capone de perna longa. A nossa relação tinha acabado e só não percebia isso quem tivesse ingerido demasiada naftalina.

Sou um gajo sem fatos e esse facto não me atormenta.

4 comentários:

  1. Disseste "beneficiar" alguém necessitado? Não estou entendendo. Como se a malta já não andasse em suficiente aperto.

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  2. Basicamente, vão para caridade. E não significam isto que se trate de uma juventude partidária...

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  3. quando encontrar por aí um mitra arrumador de carros vestido com um fatinho que lhe assente na perfeição em altura (sim, que o mitra é baixinho e magricelas) mas que tenha uns 4 ou 5 nºs a mais na lagura, vou logo pensar "ora aqui está um dos fatitos do Mak"

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  4. Acho que entregava o carro e a casa a um arrumador de fato. Na boa! :)

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