10.8.10

A mudança (conclusão)

Uma semana depois, estava Carlão a ler “A Bola” na sua paz interior, quando Carlota o interrompeu, de forma autoritária “Carlos Eusébio” (o segundo nome, como sempre, era sinal de coisa séria e raspanete) “Vamos à clínica”.

“Mas então Carlota, que se passa?”,
“Isto assim não dá. Sou eu que faço tudo e tu nem sequer te interessas por nada....”
“Mas Carlota, pensei que era assim que ia ser...foi por isso que mudámos”.
“Pois é, mas eu não me estou a ver ter esta vidinha. Bem sei que fizeste tudo para me dar a ideia que não querias mudar, só para eu querer e agora só queres é boa vida, não é Carlão?”
“Mas, tu é que querias mudar, sair aí para fora, mostrar-te ao mundo. Não era esse o caminho da felicidade?”
“Não me venhas com falinhas mansas Carlos Eusébio. Vamos à clínica reverter o processo e é já”.

Contrariado, Carláo lá foi, resmungado para dentro, que por fora era Carlota quem ia reclamando da sua falta de empenho em fazer que as coisas resultassem. Uma vez na clínica, Carlota falou com o médico que tinha acompanhado o processo.

“Sr. Dr, esta mudança não resultou. Como ainda estamos nas duas semanas do período experimental, queria reverter o processo.”
“Mas, Carlota, as coisas não funcionam assim.”
“Eu sei que não funcionam. O Dr sabe lá o que é ter um homem dentro de si, sem fazer nenhum, que nem se preocupa minimamente com o que eu faço ou deixo de fazer. Quando era ao contrário, não era assim....”
“Pois, mas foi por isso que chegámos à decisão de mudar. A Carlota sempre foi a força motriz, o Carlos seria sempre aquilo a que, em jeito de brincadeira, se pode chamar um banana sem chama, sempre a fingir.
“Ó Dr, olhe que eu daqui oiço” Carlão podia já não ter muito a dizer, mas não estava ali para ser enxovalhado.

“Desculpe lá Carlos. Olhe, Carlota, vamos fazer assim” o médico tinha um bonito sorriso e até era interessante para a idade, segundo Carlota. Para Carlão, era o carro dele que era interessante. “A Carlota tem que se afirmar, mas tem que perceber que o Carlos também é parte de si, com as suas diferenças. Pode não parecer, mas ele preocupa-se, nem que seja porque é você que o alimenta. Viva a sua vida, mas de quando em vez, deixe-o vir brincar um pouco cá fora. Só assim, ficarão ambos mais satisfeitos”.

“Bem me podias deixar ir à bola, de vez...” Carlão pensou que podia aproveitar.
“Carlos Eusébio, isto não é altura para isso. Olhe, muito obrigado Dr, vamos tentar então fazer as coisas funcionar dessa maneira”. Carlota levantou-se e deu uma palmada forte nas costas do médico, que até estremeceu.

Apesar da vida nunca ser bem aquilo que parece Carlota lá arranjou forma de ser feliz, dando aqui e ali um espacinho ao Carlão, para que este pudesse arejar um pouco. Era essa a razão porque, entre outras coisas, todos os quinze dias nos relvados da Torre de Belém poucos se metiam com aquela gaja de 1,80m que costumava jogar a central nas peladinhas da rapaziada. É que podia ser o Carlão que ainda ia dar uns toques, mas era da Carlota a moer-lhes a cabeça que eles tinha medo, apesar dos saborosos rissóis de camarão e da quiche lorraine que ela fazia para comerem todos depois do jogo.

3 comentários:

  1. Pois é! TodAs temos um Carlinhos e todOs têm uma Carlotinha. Hum, pensava que isto ia sair melhor; não me pareceu assim tão hum esquisito quando o pensei. Vou tomar outro café ...

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  2. “Mas, tu é que querias mudar, sair aí para fora, mostrar-te ao mundo. Não era esse o caminho da felicidade?” - esta frase deliciosa sintetiza muito bem os "conflitos interiores" desta personagem. É um dos melhores contos que li aqui, Mak.

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  3. It is interesting, I will go back to read them again.

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