2.8.10

Lábia, essa arte tão tradicional

Tê-la ou não tê-la, eis a questão, tal como disse o jovem Shakespeare, ao justificar-se pelo facto de ter escolhido um gibão lilás para uma festa de Verão que, segundo ele, foi um sonho. A Lábia, e trato-a com letra grande como trataria qualquer disciplina na escola, é uma coisa muito bonita. Ou muito feia, dependendo se a temos ou não.

“Ele é que tem uma granda lábia” ou “Vai lá, que tu é que tens cá uma lábia” são frases muito aplicadas na presença de um/a amigo/a com a dita cuja. Ter gente conhecida com lábia, quando nós próprios não a temos, é como ter uma gazua ou uma fotografia do Daniel Oliveira na carteira. Tudo parece mais fácil e a palavra “Amigo” surge-nos com mais facilidade.

Não se deve confundir lábia com cunhas ou o puro bem falantismo (é parecido com elefantismo, mas não obriga a passar boa parte da vida num circo). Cunhas são coisas que qualquer choninhas pode ter, sem saber ler ou escrever e o bem falantismo é algo que embora possa ter a sua génese na mesma árvore, pertence depois a um ramo separado dentro daquilo que o Sócrates (o grego e não o que leva muita gente ao grego) definiu como Retórica, antes de ir tomar um Capuccino de cicuta.

Faça-se aqui uma pausa para um capilé e clarifique-se um aspecto – a lábia, enquanto arte maior, é inata. É como ter jeitinho para a bola e uma mãe chamada Dolores, não se escolhe, nem se aprende. Pode melhorar-se, quem treinar muito pode até passar por “Alguém com alguma lábia”, mas os verdadeiros predestinados nascem já a convencer a mãe que o acto de mamarem não só as valoriza como mulheres, como é uma prova que a relação mãe-filho tem um cunho tão especial, que só momentos como este definem.

Tal como na fronteira entre a Índia e o Paquistão, também o equilíbrio é débil entre a Lábia e o Chico-espertismo. A primeira tem, em boa parte das vezes, uma índole positiva e é recebida pelas pessoas com um sorriso. Já o Chico-espertismo, é mais uma atitude e uma maneira de pensar provinciana que nos leva a pensar que somos mais espertos que os outros ao fazer coisas que provam exactamente o contrário, mesmo que os resultados pareçam positivos.

Já eu, nunca me preocupei muito com o facto de ter ou não ter lábia. Estava mais ocupado em tentar convencer as pessoas que aquilo não era um assalto.

5 comentários:

  1. Fazes juz ao nome, portanto...

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  2. Fodeste tudo quando falaste no Daniel Oliveira. Eu estava a gostar, juro, mas não consegui continuar.

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  3. A isso chamamos vulgarmente o efeito Daniel Oliveira, amiga (a junção desta palavra a tudo é outro efeito secundário).

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