12.8.10

Clássicos de Verão 2 - O Amigo do INE

Mais uma volta, mais uma viagem, mais uma reedição de um clássico.

Outubro de 2007
Censo Comum


Prosseguindo nesta fase muito humana da minha verve, debruço-me hoje sobre o facto da maior parte das pessoas que sofre do mal de ter (ou pensar que tem) amigos, ter nesse mesmo lote alguém que trabalha no INE.
Enquanto se questionam se eu já nasci assim ou fui vítima de grave acidente, deixem-me esclarecer: o amigo do INE, que já estão a negar à partida conhecer, não é necessariamente um funcionário dessa nobre instituição dedicada às artes estatísticas, apenas se comporta como tal.

“Caramba meu biltre, muito gostas tu de metáforas de cariz duvidoso”, replicam vocês, insistindo em não ficar calados ao ler os meus textos. Antes metáforas do que restaurantes desse género, avanço eu sem grande mestria, tentando voltar ao tema.
O amigo do INE é aquele que disseca a nossa/vossa vida, sem que tal seja sinónimo de preocupação pela mesma, mas sim de uma curiosidade mórbida por factos e dados específicos, essencialmente sobre bens materiais. É aquele personagem que troca o “Olá tudo bem”, “Que é feito de ti?”, “Vamos beber um copo?” ou “Como é que estão os teus pais?”, por coisas simples e amistosas logo de entrada, como por exemplo: “Então estás a trabalhar onde? Ganhas quanto, limpo?, “Já compraste casa? Quanto pagas, por quanto tempo?”, “Vives sozinho ou com a tua namorada? Possuem carro próprio? Cada um?” (esta, há provas que a pergunta foi literalmente feita assim a uma dada pessoa, não é invenção pura) e muito, muito mais.

Embora defensor acérrimo do materialismo, visto não ter muito a esperar da vida em termos de espiritualidade, este tipo de abordagem melindra-me um bocado o sistema, especialmente porque tendo-se na conta de “nossos amigos”, muitas vezes esta gente dispensa os rodeios de nem sequer se disfarçar a avidez de informação.
“Tens quantos ténis de marca?”, “Essas férias ficaram-te por quanto?”, “Os implantes de silicone da tua irmã foram feitos onde e por que verba?” são temas naturais e essenciais para o amigo do INE, sempre abordados com um sorriso nos lábios. Para mim não colam. As pessoas que fui dado a conhecer, e que faziam deste registo uma constante, posso dizer que hoje não constam do meu cardápio de contactos regulares.

Já agora, em média, quanto é que vocês ganham?

2 comentários:

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