17.8.10

And justice for all



Sou um acérrimo defensor da vigarice e da corrupção, pois considero que se a maior parte das pessoas fosse correcta e honesta, isto não durava muito tempo, até porque o tédio ia ser insuportável. Mas, também defendo que, a fazer trafulhice, que seja com arte e categoria, até porque um aldrabão com nível é sempre muito mais respeitado.

Daí que não me chateie nada com o chamado bluff do chamado aldrabão de circunstância. Este espécime não é um aldrabão de gabarito, mas tenta as suas pequenas obras de arte, seja não pagando o estacionamento público ou tentando viajar em autocarros e/ou Metro sem pagar bilhete. Até aí tudo bem.

Mas, caso sejam apanhados, haja dignidade. Tentaste aldrabar, não compraste bilhete e agora veio o pica? Epá, dá-lhe um abraço e diz-lhe "Bem jogado, mas eu tinha que tentar. Sempre era mais um café que não pagava". Aquele choradinho do "Ah, esqueci-me", "Isto está avariado", "Oh, peço imensa desculpa, distraí-me, tenho aqui dinheiro para o bilhete e tudo" ou "Vá lá, deixe-me lá sair na próxima que eu sofro do Mal de Hansen e, pior que tudo, está-se-me a acabar a cola para as partes".

Não, não e não. Ou te redimes atirando-te de um transporte público em movimento ou poupas a restante população ao drama de mendigares quando te ameaçarem com ires para a esquadra se não mostrares identificação.

Já em relação ao estacionamento, o procedimento é o mesmo. Tens uma senha de Outubro de 2004 ou puseste 50 cêntimos às 9 da manhã e agora são seis da tarde e tens o carro bloqueado? Azar, tentaste e as forças de bloqueio fizeram pela vida. Abraça o fiscal da EMEL e o senhor do reboque e fica com a satisfação interior de eles terem que usar uma farda que não lembra ao demo.
Nada de ameaças ao pobre trabalhador, de dizer que foi muito azar porque só tinham ido trocar moedas ou que os parquímetros estavam avariados. Tentaram e falharam, sejam aldrabões com garbo, ainda que amadores.

Aldrabar é como ir ao Casino. Às vezes apostas tudo no vermelho e sais de lá com um olho negro.

5 comentários:

  1. Neste capítulo penso existir um grande homem muito injustiçado. Se Saramago foi vulto da literatura, temos um ainda maior na vigarice e ninguém lhe dá valor. Eu considero-o o Frank Sinatra da jogatana. Vale e Azevedo. Nunca perdia a cara. Puxava sempre de um "contrato" mostrado muito ao longe. Conseguiu por um técnico da IBM numa conferência de imprensa, que não percebia puto de português, para anunciar um acordo de patrocínio fictício de dezenas de milhões na vépera de eleições.

    Se este gajo não é das mentes mais brilhantes que este pais teve não sei quem é. Penso que devia ser primeiro ministro. Ia todo um continente preso, mas vivíamos uma década como nem no Mónaco.

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  2. A próxima vez que for à Bica do Sapato abraço o empregado e piro-me, sem me deixar apanhar. Acho que tem muito mais glamour. Não ia sujar os braços por 90 cêntimos. Bj

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  3. "malandro, é o gato que come peixe sem ir à praia"

    em: ópera do malandro

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  4. apanhado? É nessa altura que se pode fazer o melhor do golpe. Em vez de uma despedida com um abraço, uma despedida com um flic-flac: revele-se mais um heroi moderno, o que não retalia nem abraça, mas que sobe a parada e suplante tudo o que já disse. No caso da emel, por exemplo, é conseguir convencer o senhor do reboque que é o Vale e Azevedo.

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