20.7.10

Tele-Mata

(parte 1)



O primeiro foi o polícia. Nem deve ter visto a barra de metal a vir na sua direcção, enquanto estava encostado calmamente ao carro patrulha à espera do colega. O barulho estranho que o metal a embater em ossos a estalar fez deixou-o agoniado, tal como o rio de sangue que jorrou. Duas pancadas foram suficientes e os gritos da senhora ao longe puseram-no em fuga para o parque.

“Olho por olho, dente por dente. Três vidas pela do teu filho”. A voz ao telemóvel tinha sido fria e objectiva e a dúvida tinha-se dissipado quando ouviu a voz do seu filho do outro lado. Deviam estar a vê-lo, porque a indicação do polícia e de onde encontrar a barra de metal foram quase imediatas. O barulho do gatilho do outro lado e o minuto em contagem decrescente fizeram o resto.

O tipo que fazia jogging no parque foi a seguir. “Calções vermelhos. Usa as pedras das obras junto à fonte.” A voz do outro lado parecia estar em todo o lado e o número anónimo não lhe dava pista nenhuma. “Papá, eles têm uma pistola como a dos cowboys”. Desapertou a gravata, o calor era insuportável, apesar de estarmos em pleno Outono.
Correu atrás do atleta ocasional. Os pés doiam-lhe naqueles sapatos que não foram feitos para correr. Ele não deu por ele, com os seus headphones a jorrarem uma qualquer música moderna. Uma pedrada com força no meio das costas quase que o derrubou. Voltou-se espantado e com muitas dores. Só viu uma figura meio humana, de fato e ar alucinado a saltar na sua direcção com uma pedra na mão.

“Desculpa” deve ter sido a última palavra que ouviu. A pedra na sua mão subiu e desceu várias vezes, ensopando-lhe a manga com algo que ele nem sequer quis olhar. Chorava e gritava coisas incompreensíveis e o parque, embora pouco frequentado ao início da noite, parecia cheio de olhos focados nele e no corpo inerte por baixo de si. Correu novamente.

“E agora?”
“Agora, falta um. Vai até tua casa.”


(fecha da parte da tarde)

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