20.7.10

O salto

(conclusão)


Morando a dois quarteirões, foi por ruas e vielas menos percorridas e, se ainda tivesse alguma fé, teria rezado para não se cruzar com nenhum vizinho, coisa que conseguiu. Subiu até ao 7º andar, esperando encontrar alguém na sua casa. Ninguém, vazia, como era costume.
O telemóvel, outra vez.

“Não está cá ninguém.”
“Sabes bem quem é que falta…”
“Não….”
“Sabes. Vai à janela.”

Olhou lá para baixo. Não era a primeira vez. Eles também sabiam disso.

“Sou eu.”
“Sim, és tu.”
“E ele, vai ficar bem”
“Depois de o fazeres, sabes que sim”
Abriu a janela
“Digam-lhe que….que eu…”
“Ela sabe. Sempre soube.”
O vento frio da noite. Os barulhos da cidade. E, de repente, o vazio.

Cerca de meia hora depois chegou a ambulância à área isolada pela polícia.
“Então, é este o maluco que limpou dois tipos ao pé do parque?”
“É esse mesmo.”
“Deixou alguma nota?”
“Nada. Só tinha um telemóvel sem bateria, nem cartão na mão e uma fotografia do puto no bolso da camisa. Acho que era o filho, que morreu atropelado há dois anos por um gajo que ia a falar ao telemóvel.”
“Pois, não falta é disso, infelizmente…”
“Disso e malucos, desses é que também não temos falta”.
E ouviu-se o barulho de um zipper a correr.

6 comentários:

  1. Isto fez-me um bocado de confusão.

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  2. Grande thriller psicológico. Tensão e angústia crescentes e no final o "twist" que finalmente nos dá a conhecer a solidão e a dor do protagonista. Parabéns.

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  3. Gostei desta short-short story! Um thriller que se revelou uma história de vida que pode ser de qualquer um de nós. A Psicose bate à porta de qualquer um...
    Boa!

    RP

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  4. Parafraseando um grande comunicador:

    É disto que o meu povo gosta!

    Excelente short-story. Isto podia explicar algumas das noticias que se lêem no Correio da Manhã.

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  5. Muito boa. Fizeste-me lembrar os "short movies" do Hitchcock :)

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