7.7.10

O pesadelo

- Calma, já passou.

Sentado na borda da cama, suava copiosamente e o seu olhar transparecia era um misto de vazio e desespero que ganhava forma na força com que lhe apertava a mão.
Tentanto a melhor voz calma que conseguia, usando a mão livre para lhe alisar o cabelo, tentou acalmá-lo de novo:

- Pronto, respira fundo…. já passou.

A voz que lhe respondeu, parecia tudo menos calma.

- Já passou?? Já passou? É só mais um não, é? Mais um jogo de sombras, de truques, de enganos e confusões, onde nada é o que parece. E depois este mais outro e mais outro e nunca mais vou sair deste labirinto.

- Foi só um dia…. – colocou-lhe a mão no ombro – os dias fazem parte da vida de toda a gente. Qualquer um que acorde pode passar por isso.

- Foi horrível, acordar para um dia assim. As pessoas tão…tão…normalmente assustadoras, tudo tão falso. Por mais que quisesse adormecer e acabar com aquilo não conseguia.

Parecia agora ter acalmado. Com um gesto suave, conduziu-o de novo para a almofada. Em breve adormeceria e esqueceria aquele dia. Até ao próximo. Sofria de um acordar crónico e, para quem vive no mundo dos sonhos, lidar com a realidade era o pior pesadelo.
Deitou-se ao seu lado. Felizmente só acordava quando ele se levantava e saía em pânico para o mundo dos não sonhadores. Nessas alturas, restava-lhe então esperar que ele voltasse e lhe contasse mais uma experiência aterradora.
Depois, acalmava-o e voltavam, pura e simplesmente, a sonhar.

5 comentários:

  1. Sonhaste que o chefe te tinha obrigado a fazer a barba??

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  2. @ jiboia - Nesse aspecto, a minha barba de quatro dias diz-me que posso estar tranquilo...

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  3. Isso e tomar a medicação. Comigo resulta (quase) sempre.

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  4. Mak pensa do avesso. Lembra caros senhores expatriados. Cuidado.

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