1.7.10

Mortinho por morrer descansado

Querido Diário,

Segunda Feira
Saí de carro e fui encontrado afogado dentro do meu próprio veículo que foi incendiado. Como um dos meus dentes ficou preso no porta-luvas e a marca da pasta dentífrica era muito incomum, foi fácil prender a manicure da minha amante que era afinal minha meia-irmã.

Terça Feira
Estava no trabalho quando me engasguei com uma bolacha. A água que bebi soube-me mal, mas o problema foi o copo cujo plástico tinha um reagente que me foi fatal e me fez sufocar em sofrimento. Como é que podia saber que o tipo com que eu gozava na escola primária abastecia agora as bolachas na máquina dentro do meu trabalho.

Quarta Feira
Para relaxar, fui ao cinema. Fiz um corte de papel com o bilhete e havia uma resina esquisita no apoio para os braços. O meu amigo começou a tremer a meio do filme e teve de ir à casa de banho injectar-se, porque é diabético. Quando voltou eu estava rígido que nem um bacalhau seco e tinha pipocas no nariz, nos ouvidos e nos olhos. Ah, estava morto. Uma vez que a terra encontrada no chão era igual à dos cenários em que se passava o filme, foi fácil prender o meu primo afastado, que entrava no mesmo e soube que eu ia herdar muito dinheiro. Não fizeram nada aos miúdos que me encheram a fuça de pipocas.

Quinta Feira
Fiquei em casa, para evitar problemas e para acabar o meu livro. Morri com dois balázios na cabeça, feitos por balas artesanais de um sniper que tinha uma panca com o número da lotaria que lhe tinha sido roubado e eu tive o azar de estar a morar no 43-4º no código postal 3210-231. Ainda bem que ele deixou cair o bilhete de lotaria quando me foi arrancar os olhos de souvenir, senão não o tinham apanhado.

Sexta Feira
Fui atropelado e morri no local, mas não tive culpa. O motorista é que tinha sido envenenado por uma moeda de troco dada por uma idosa que estava farta de esperar nas paragens.

Sábado
Convidei umas miúdas para uma festa lá em casa e fui encontrado morto na varanda, com um sorriso desenhado a baton, de bikini posto e efeitos evidentes de sobreutilização de Viagra. Fui confundido com o guitarrista dos Tokyo Hotel, mas o vocalista é que foi preso, porque aquela marca de baton era produzida de propósito para ele. Mesmo morto, pedi aos santinhos para me desligarem a música deles que passava em loop nos meus phones.

Domingo
Estou farto de ser figurante em séries de CSI’s, patologistas, criminologistas e afins. Ando mortinho por escrever a minha carta de demissão.

12 comentários:

  1. Adorei! Agora fiquei com pena dos figurantes, nunca mais vou ver o CSI da mesma forma...
    Mas se fosse eu a escrever o guião, os miúdos das pipocas iam presos e deitava a chave fora. :)

    ResponderEliminar
  2. Mak, you're quite something!
    How can someone talk such shit and still be so bloody brilliant at it?? Amazing. :)

    ResponderEliminar
  3. Domingo
    Alguém me trocou os medicamentos e hoje não tomei o verde. Tomei o azul e estou com uma enorme erecção mental.

    ResponderEliminar
  4. Oh meu deus morrer com uma bolacha é demasiado mau... ahahah

    Eu devo morrer engasgada com um pedaço de Cadbury fruit & nuts.

    ResponderEliminar
  5. Muito Bom! O Jerry Bruckheimer se vê este teu post vai contratar-te como argumentista...

    ResponderEliminar
  6. Aproveitando uma famosa frase cinematográfica de um "brilhante# filme portugês dos anos 90: "mortos nã bebem"!

    ResponderEliminar
  7. wow - muito bom e, como sempre, um desfecho inesperado. :)

    ResponderEliminar
  8. Atenção, nenhum destes textos é escrito sob o efeito de medicação. O que tanto pode ser positivo, como altamente assustador.

    E, se os mortos não bebem, em que categoria metemos o Jorge Palma?

    ResponderEliminar
  9. O Jorge Palma? É zombie, obviamente! ;)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.