7.7.10

A maturidade tem um preço

Ainda era um petiz e já algo em mim apontava para um espírito mercantilista. Na caderneta de cromos do Euro 88 troquei um Ruud Gullit por mais de 20 cromos e em colecções seguintes, toda a gente temia fazer trocas com aquela criança de sorriso irónico.

Já mais velho, no ensino secundário, quando as cassetes de Spectrum já não eram aquela moda, cedo me lembrei que poderia revertê-las em belos mixes musicais e vendê-los a coleguinhas em busca das últimas novas discográficas.

Pelo meio, existiam sempre negócios com livrinhos da Marvel (que hoje me arrependo), que não só renderam uns belos trocados como poderão ter vindo com bónus na forma de simpáticos magazines internacionais com artigos deveras interessantes e reportagens fotográficas com moças desinibidas que acreditavam no amor.

Chegado à universidade, poderei ou não ter feito negócios com batons e vernizes, decorrrentes de um contacto próximo numa perfumaria, mas o que me ajudou a custear parte da viagem de finalistas foi a venda de tabaco a preços mais baixos do que os de tabela. Não seria estranho, a quem partilhou o mesmo espaço académico que eu, encontrar um mitra de mochila junto à máquina do tabaco a perguntar “Fumas Marlboro? Epá, eu vendo-te maços selados muito mais baratos”. Isto para não falar nalgumas senhas de bebidas em festas académicas que poderão ter sido forjadas…

Apesar de tudo isto poder indicar uma carreira como feirante e algum cadastro criminal, tal não aconteceu. Há ainda um pequeno negociante/candongueiro dentro de mim, mas hoje em dia deixo-o tirar férias com regularidade.

Só isso pode explicar o facto de ter vendido dois passes de três dias para o Alive virtualmente a preço de custo, quando andam aí artistas a vendê-los de 150€ para cima.
Por isso, pensem bem, se porventura o bilhete que andavam à procura vos veio parar à mão por via de um amigo de não sei quem que vos disse “Epá, houve um otário que me vendeu isto ao preço de tabela e pronto”, sorriam e agradeçam aos deuses, porque eu não era assim.

E depois têm entre amanhã e sábado para me encontrarem no recinto e beijar-me a mão com reverência.

10 comentários:

  1. E maços de Malboro... ainda arranjas?!?

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  2. Meu caro Mak, eu fiz o percurso inverso. Na escola era sistematicamente intrujado nas minha trocas filatélicas, para além da senhora da padaria (pequeno comércio que transaccionava pão) me enganava sempre no troco. Hoje, qual história do patinho feio, dedico-me à nobre ciência de majorar margem em bens transaccionáveis.

    (diga-me, ao menos, que os bilhetes vendidos a preço de custo lhe proporcionarão vantagens a médio prazo...)

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  3. Vemo-nos por lá então, sem beija-mão, até porque tenho convite para os três dias a custo zero.

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  4. Identifiquei-me muito com este post...Ainda me lembro de andar de porta em porta a vender rifas para o meu irmão poder ir à expo sevilha 92

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  5. pipoca, esses convites não perdem muita qualidade enviados por fax?

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  6. @ Louise - Poderia fazê-lo, mas o trabalho a que isso me obriga actualmente, não compensa...

    @ Pipoco - É por isso que a vida é uma gare de comboio onde se juntam e se cruzam destinos opostos, cruzados e, por vezes atropelados. E, hoje em dia, poder cobrar favores é mais vantajoso do que uns meros trocados...

    @ Pipoca - Muito bem, a cada um a sua arte. Ainda com a barriguinha cheia da Riviera a la borliu não me ia queixar dos bilhetes...

    @ Flor - Eu tentei vender rifas para exportar a minha irmã para o Bangladesh. O governo local recusou, por excesso de desgraças no território...

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  7. Conclusão:

    Sou uma tótó desde criança.

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  8. Quero ver se alguém sai de lá "alive" caso seja apanhado...

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  9. Estava a ver que não encontrava nada que tivéssemos em comum. Já estou mais descansada.

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  10. Se já tivéssemos debatido vernizes, certamente que essa dúvida se teria dissipado há mais tempo...

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