26.7.10

Leituras do contador de histórias

Um dia calou-se e todos deram por isso.
Não porque fosse o mais inteligente e deslumbrasse pelo seu conhecimento das coisas.
Não porque fosse o mais viajado e cativasse com o relato das viagens que fez e dos sítios e gentes que foi conhecendo.
Não porque fosse o mais político e deixasse sempre no ar discursos que marcavam.
Não porque fosse o mais odioso e destilasse veneno em cada palavra e magoasse todos os que pelas suas palavras eram tocados.
Não porque fosse o mais rico e poderoso e fizesse mover montanhas pela sua influência.

Calou-se e todos deram por isso porque era um contador de histórias.

Quando falava, nunca era pelo gozo da sua voz, mas pelo gozo na reacção dos outros. Adivinhava-lhes o arregalar dos olhos nas partes mais emocionantes, o cerrar dos punhos e dentes, quando as coisas davam para o torto. Mas, acima de tudo, antecipava-lhes o sorriso e, nesses momentos, via as suas palavras ganharem vida e um pouco de si a fazer parte da vida dos outros.

Calou-se pensando que já não tinha mais histórias para contar. Depois de tanto tempo a fazer da realidade uma arte e do trivial especial por breves momentos, pensou que já não lhe restava o que quer que fosse que o tornava aquilo que era.

O silêncio foi breve.
De todos os lados, próximos e distantes, aqueles que tinham ouvido e feito parte das suas histórias, vieram ter com ele e contaram-lhe a história de como os seus caminhos se tinham cruzado e como esses momentos eram uma memória que estimavam, formando uma nova história, de cada vez que as recordavam.

Sorriu. Tinha agora mais uma história para contar. Aquela sobre o dia em que as suas histórias vieram ter consigo e lhe explicaram que, uma vez contadas, o poder de as deixar de contar já não estava nas suas mãos.


Um dia, se puder contar esta história na primeira pessoa, dar-me-ei por contente.

6 comentários:

  1. ...
    (aqui está o meu silêncio)

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  2. Conheço quem conte histórias e mais histórias. E conheço tão bem, mas tão bem, que para mim, que já ouvi essas histórias algumas vezes, é chato. Mas faz sempre um sucesso.
    E sei que um dia vou ter saudades das histórias dele, quando ele já cá não estiver para contá-las. Está quase a fazer anos, vou ouvir mais umas pela segunda, terceira ou quarta vez.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Adorei este texto. fez-me recordar o velho que lia romances de amor, acho que lhe vou dar um olá.

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  5. E contaste uma "estória" de uma forma muito comovente.

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  6. Ao menos sabes contar essa história, o que já faz de ti alguém que vale a pena ler.

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