13.7.10

Há mais tigres brancos que bons críticos

Caso eu, nestes dias ligeiramente acinzentados, me desse para fazer perguntas esquisitas às pessoas, certamente que vos estaria agora a perguntar sobre a cor da vossa roupa interior. Mas, como não existe no meu ser um necessidade intensa de vergonha alheia, esse é um capítulo que vamos deixar em standby.

Sendo assim, falemos do que é a crítica e, para isso, consultemos um amigo que dá pelo nome de dicionário. Amigo meu, acrescente-se, que eu não ponho as mãos no fogo pelas pessoas com quem vocês se dão.

crítica
s. f.
1. Análise, feita com maior ou menor profundidade, de qualquer produção intelectual (de natureza artística, científica, literária, etc.). = apreciação
2. Capacidade de julgar.

E, em sentido figurado - opinião desfavorável.

Em termos gerais, é da natureza humana ser crítico, o que nos deve tornar únicos entre os animais. Não se vêem para aí elefantes a dizer “Epá, já viste aquele tipo sempre de trombas, já não se pode com ele. Deve pensar que é o Babar não?” ou até mesmo “Desde que arranjou emprego no circo, tem a mania que é artista. Mas, do irmãozinho que trabalha no Zoo não diz nada não é?”.
Algures no tempo, a coisa derivou do patamar da análise para a festa do sentido figurado carregada de negatividade. O tio Kant, quando da “Crítica da Razão Pura” não veio para ali dizer que a razão pura era uma cabra e que apesar de andar enrolada com o empirismo e sabe-se lá com quem mais ainda insistia em chamar pura e por aí em diante.

Hoje em dia, o significado de crítica é, traço geral, negativo. As pessoas pedem uma crítica construtiva como quem pede um pão de leite com queijo, mas sem manteiga, ou seja, a lógica está invertida. Havendo até quem seja pago para criticar, esse “poder” é usado muito mais vezes com carácter acusativo do que formativo. É difícil encontrar o crítico capaz de se afastar da sua posição pessoal, para um ponto de neutralidade, onde é o seu conhecimento sobre a matéria que dita o resultado da sua crítica.

Na vida pessoal, eu percebo o desvio. É mais difícil ser imparcial quando se está a levar pontapés nos tomates. E, mesmo que não seja algo tão gráfico, criticar no sentido de dizer mal sabe bem.

Quando as pessoas começam a ser pagas por isso, a festa devia acabar, o fatinho do gosto pessoal devia ficar em casa, quando começa o trabalho. Mas eu olho para os críticos de cinema, os de espectáculos e até os de pelota basca e não é isso que vejo.
E não, um crítico não é o mesmo que um comentador. Um crítico é pago pela avaliação que o seu conhecimento permite fazer, um comentador é pago pela sua opinião, que não tem de ser neutral.

Mas pronto, podemos voltar a falar de roupa interior, que aí todas as críticas são lícitas.

2 comentários:

  1. Eu sei que não é nada sexy... mas hoje é mesmo beje.

    P.S. O que eu concordo com o que disseste. Mas infelizmente hoje em dia está tudo invertido e desvirtuado.

    ResponderEliminar
  2. Concordo em absoluto, acrescentando somente que a par das outras, também a crítica literária anda pelas ruas da amargura.

    Preta, a cuequita. O top dispensa o resto :)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.