12.7.10

A cena dos vizinhos

Não sei se é dos filmes ou do sushi de ontem à noite, mas creio que não ando bem a aproveitar a história dos vizinhos. Desde miúdo que oiço histórias e vejo na TV e no cinema relatos sobre a multiplicidade de emoções que os vizinhos podem trazer à nossa vida e nada.

Da vizinha desinibida, que gosta de se vestir de janela aberta / que gosta de ir correr só de lycra / que gosta de gritar desenfreadamente no acto do amor ao vizinho psicótico que gosta de ficar sozinho às escuras nas escadas / que se ouve a serrar à noite / que lambe o espelho do elevador até à velhota que ouve novelas aos gritos / que grita quando não há novelas / que gosta de sair à rua com um saco na cabeça, só tenho vislumbres muito distantes dessa realidade.

Não tenho vizinhos amigos do peito, não tenho gente a bater-me à porta a pedinchar raminhos de salsa ou a tentar converter-me ao taoísmo, nem sequer tenho um vizinho cego que me pergunte se tenho visto a pouca vergonha que vai no andar de baixo, que ele não consegue e gostava de saber.

Casais demasiado prestáveis e atenciosos, dos quais fugimos pelas escadas para não irmos pelo elevador? Nem vê-los. O companheirão confidente que joga PlayStation e não tem os hábitos de higiene nos píncaros? Nada disso. A vizinha boa samaritana que nos traz fatias de bolo e nos conta a história da vida do prédio inteiro? Não consta.

É certo que já não moro no prédio onde cresci, mas parece-me que os relatos de boa vizinhança já não são o que eram ou então nunca chegaram a sê-lo na minha realidade do centro de Lisboa.
A não ser que eu seja o vizinho psicótico que toda a gente evita. Mas também não acho que passar a noite a driblar uma bola de basket e gostar de ir buscar o correio vestindo apenas um saco do Continente seja razão para tirar essa conclusão…



PS – Por falar em vizinhos, a Espanha é campeã do mundo. E há sempre quem não goste quando a vida corre demasiado bem aos vizinhos.

9 comentários:

  1. Pois eu presumo que seja a tal que se veste de janela aberta, ainda indiferente ao facto de onde antes era espaço vazio, existe agora um gigantesco estabelecimento de saúde, a tal que afasta os vizinhos do elevador com as suas bestas caninas, que põe bilhetinhos com ameaças anónimas nos carros mal estacionados e que leva laranjas, flores ou bolinhos à vizinha. Curiosamente esta diz que gosta muito do banzé que se passa aqui por casa, da música, "da fala dos animais que, coitadinhos, só se estão a exprimir", das visitas agitadas que estoiram a porta todos os fins de semana, diz que sim, que sou eu que transmite um bocadinho o ambiente das escadas dos prédios de Angola e parece que por lá se chama a isto "calor".

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  2. Aqui no Lambert é a apoplexia total. Os vizinhos só são interessantes pela sua não-interessante vida. Acho que sou eu o vizinho estranho do prédio, ou pelo menos é o que prefiro pensar.
    Já o prédio onde cresci era uma amostragem dessas personagens todas. O astrólogo, o comentador desportivo, a senhora de fáceis virtudes. Tenho algures um post sobre isso...

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  3. Já me dou por contente, se não tiver vizinhos barulhentos.
    Deles, quero mais é distância... exceptuando o cordial bom dia, boa tarde ou boa noite.
    Não há cá confianças, porque a malta abusa.

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  4. No prédio onde cresci e nos prédios vizinhos havia todo o tipo de personagens surreais, apesar de ser um bairro pacato.
    Moro neste prédio há cerca de 10 anos e cumprimento muito bem todos os vizinhos mas nada sei das suas vidas. Só me chateei um dia com um velho babão que insistia até à exaustão que queria ver se a minha casa era igual à dele. Credo!
    De resto, tenho vizinhos que quando se cruzam comigo na escada para ir despejar o lixo, se oferecem para levar o meu e, eu claro, lá lhes entrego o meu saquinho.
    E tenho o vizinho giro, porém, muito bebé ainda, que tem as pitas todas do prédio atrás dele e que anda há mais de 2 anos a tentar a sua sorte comigo. Tem piada o rapaz. :)

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  5. Anónima, tu vê lá. Os velhotes que vão ao centro de saúde, ainda têm um ataque. Estão muito bem a queixar-se das suas maleitas ao médico, olham inadvertidamente pela janela e deparam com uma gaja toda descascada. A reacção pode ser adversa... ou nem por isso :)

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  6. Os meus vizinhos são tão interessantes que nem dou por eles.

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  7. Tou com a anónima quanto à privacidade das janelas. O problema não deve ser eu andar nu pela casa quando isso acontece, mas sim quem se põe a olhar para a casa dos outros... Se calhar fui contaminado pela mobilia barata vinda da suecia. Mas sou mais feliz desde então.

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  8. Por falar em vizinhos, já ouviste falar dos Prédios que Falam?
    Ah pois é bébé!
    Aqui: http://www.facebook.com/editaccount.php?networks#!/pages/Predios-Que-Falam/98651355644?ref=ts

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  9. Por falar em vizinhos, já ouviste falar dos Prédios que Falam?
    Ah pois é bébé!
    Aqui: http://www.facebook.com/editaccount.php?networks#!/pages/Predios-Que-Falam/98651355644?ref=ts

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