28.7.10

Cartas de Amor? Overrated

Comecemos por dizer que a última vez que entrei por terrenos tão perigosos eram 23.45 de uma noite de Inverno e andava eu perdido algures por uma zona menos recomendável da Amadora.

Agora passemos a dizer que, em parte, contra mim falo já que quiseram as forças do Universo que me safasse um pouco melhor na escrita do que, por exemplo, a fazer pastéis de massa tenra. O que significa que, mesmo que nunca o tivesse feito, teria boas hipóteses de escrever uma carta de amor minimamente decente.

O problema das cartas da amor é a influência do lirismo literário e o excesso de exemplos épicos que a História nos foi deixando, pondo as mesmas, quando são realmente bem escritas, (quase) ao nível de uma jóia oferecida. Embora também existam mulheres que as escrevem e bem, a questão nos cânones amorosos que se arrasta num reme reme e que por vezes faz distinções de classe é “ELE nunca/já me escreveu uma carta de amor que até me saltaram as órbitas de tão boa que era”.

E isso, é uma bela tanga. Porque nem toda a gente se expressa da mesma maneira, porque um pasteleiro pode cozinhar um bolo divino para a sua amada e, ao mesmo tempo, dar dois erros só num bilhete a dizer “Amoute”.

É certo que a intenção é que conta, o gesto é que se torna sublime e que quem cantava o “Dançando Lambada” eram os Kaoma. Mas as cartas de amor são sobrevalorizadas e pastelosas porque são “clássicos manhosos” que pressionam as pessoas a tentar demonstrar algo que não tem que ser expressado dessa maneira. Cada um que se expresse como lhe aprouver e lhe for mais natural e que dê uma cabeçada no primeiro/a que lhe apontar o dedo na matéria.

Até porque, quem é hábil com palavras, pode torná-las montras muito bonitas, mas de lojas que não têm nada lá dentro. A escrita é perigosa porque a intenção só é visível no que está escrito e não a cabeça de quem o escreveu.

Veja-se o exemplo:

“Amar-te é como dançar tango. É intenso, elegante, sensual, é ser parceiro e cúmplice, é saber o passo seguinte sem ter de dizer uma palavra.
É estarmos juntos, mesmo quando nos afastamos, é sentir que o mundo roda à nossa volta, é algo que nos envolve e nos torna um só.
É sentir que cresce no coração um fogo que me incendeia a alma com tal força, que nem o tempo será capaz de o apagar. É ver em todo o lado uma música, a tua música, que só eu oiço, tornando-a tanto minha como tua.
É saborear cada momento como se depois de uma noite inteira a dançar, esperássemos impacientemente que o dia passasse para que caísse a noite para começarmos novamente.

Amar-te é saber que, mesmo que não soubesse dançar, me farias sempre voar quando dizes o meu nome como só tu sabes dizer.”

Isto não é nenhum clássico, nenhuma ode apaixonada, nada foi sentido, mas tudo calculado para um determinado efeito. E isto, literalmente, foi para um trabalho e, por isso, a minha parca consciência nem foi chamada ao barulho.
Mas, se alguém usou/usar isto num contexto pessoal, a coisa pode parecer genuína, sentida e direccionada para uma só pessoa. É uma breve carta de amor, mas é também um logro.

Pensem nisso, que eu agora vou ali lavar as mãos com decapante, porque já estão suadas e este tipo de temas ainda as torna mais gordurosas.

14 comentários:

  1. "(...) esperássemos que impacientemente que o dia passasse para que caísse a noite e começarmos novamente." Erro!

    Correcção: (...) esperássemos impacientemente que o dia passasse para que caísse a noite e começássemos novamente.

    Uma carta de amor com erros perde toda a beleza...

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  2. Com tango é p'a meninos. Já se fosse uma com forró... tirava-te o chapéu.

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  3. Actions speak louder than words.

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  4. @ Ace - É como eu disse, cada um deve fazer aquilo que tem mais jeito. O meu talento reside essencialmente nos posts idiotas.
    O "que" duplicado foi lapso, já a concordância tem o seu quê, mas siga assim...

    @ Vívia - Forró não é a minha praia. Talvez uma morna...

    @ Silvia - Já dizia o Action Man...

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  5. A concordância é até muito interesante, escapa a quem não relê. Mas insisto no desafio forró.
    Com amor, Vívia.

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  6. A uma carta de amor destas só podia responder que depois de uma noite inteira a dançar, queria era pôr os pés de molho!

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  7. Estás desculpado "Mak, o Mau"! LOL
    Continua com os "posts idiotas", que é disso que a malta gosta...

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  8. Eh pah... eu até gostei desta versão mais querida do Mak!
    Andam a amolecer-lhe o coração, só pode!

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  9. soft soft, não conhecia esse teu lado. ;)

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  10. Mas, sou tentada a dizer, só quem sentiu algo semelhante consegue escrever estas palavras. Concordas? Por isso vale, vale por isso.

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  11. Wiwia - o tango é para meninos porque a madame nunca dançou, e se dançou foi muita mal dançado - tipo carta de amor com erros ortográficos.
    Forró qualquer patego dança.

    Quanto ao post, lembrei-me da voz da bethania a ler fernando pessoa - "as cartas de amor,, se há amor,têm que ser ridículas.
    Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas..."

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  12. Gostei particularmente da parte das montras de lojas vazias. Mais, mais!

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  13. "Subi a uma árvore para te ver, como não te vi desci" foi a coisa mai linda que me disseram mas o mais importante foi ver o gajo estatelar-se no chão. Isso é que é bonito. Por vezes são as acções o que mais importa.

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