30.7.10

Cartão Lisboa Morta Viva

O cenário: Lisboa amanheceu bonita e os passarinhos cantam, pelo menos aqueles que ainda não foram esturricados pelo calor. O que é que isso interessa para a história? Nada.

Indivíduo com pouco poder de síntese, dado a vagueações mas, ainda assim, dado a partilhar episódios fascinantes da sua vida, sai à rua atrasado. Refira-se que o atrasado é uma questão abordada aqui do ponto de vista temporal, não mental.

Na firma que tem os seus préstimos aguardam-no ansiosamente, mas ele não cede nos seus princípios e vai de transportes. Apercebe-se que o seu passe Lisboa Viva precisa de ser carregado e, apesar de ter pensado ir de autocarro, dirige-se ao Metro. (pausa para dizer que o pessoal que gere os transportes é urso e que não ter máquinas de carregar cartões à superfície, apesar de venderem passes combinados é duplamente urso)

O átrio da estação que frequenta tem três máquinas para carregar cartões. A primeira está envolvida em cenas de nudez com um técnico, que lhe parece estar a carregar em todos os pontos certos, já que ela chuta moedas por tudo quanto é canto.
Indivíduo profere impropério e tenta dirigir à máquina do outro lado, onde depara com a grande excursão de turistas que veio a Portugal só para apreciar a bela experiência que é carregar um cartão no Metro. Apesar de serem apenas 48, indivíduo prefere descer mais um lance de escadas e tentar a máquina que lá está ao fundo.

Curiosamente, só tem uma pessoa à frente e que não é incapacitada na sua relação com máquinas de bilhetes e cartões. A pessoa sai e indivíduo tenta carregar o passe, algo para o qual se encontra preparado, tendo notas e cartão multibanco já na mão.
Azar o dele.

A máquina tem a entrada das notas bloqueada pela gerência e, depois de brincar dois minutos ao “Insira o cartão MB. Tire o cartão. Insira de novo. Tire outra vez”, já pensa que a máquina o está a usar para seu próprio prazer. Não tendo como desporto favorito andar com 30€ em moedas, sobe novamente as escadas.
Na máquina dos turistas, já só estão 47, mas resolve não arriscar nessa benesse. Olha para trás e constata que o técnico já acabou a sua relação com a máquina. Começa a andar e vê que só está uma pessoa nessa máquina. De repente, alguns turistas, certamente inspirados pelos Europeus de Atletismo que estão a decorrer, passam por ele em sprint, apesar do rótulo “Síncope ambulante” que ostentam. Vá lá, são só três.

Mais uns minutos e indivíduo chega à sua vez. Constata que as opções MB e notas estão disponíveis e avança para a operação. Insere o Cartão Lisboa Viva e vê a mensagem “Cartão inválido para carregamento”, algo que a sua validade até 2012 não parecia indicar. Depois de chamar inválida à progenitora do mesmo, reforçando a mensagem com uma referência à sua carreira como meretriz, tenta de novo e calha-lhe a mesma mensagem.

Resolve comprar apenas uma viagem, não carregar o passe, esquecer os mais de 10 minutos que leva naquilo e não pontapear a máquina com algum entusiasmo. Não consegue cumprir esta última resolução.

Corre para o Metro.
Sai do Metro e vê uma máquina vazia no átrio de chegada. Experimenta carregar o cartão e tudo corre bem à primeira.
Lembra-se do que passou e volta a fazer referências a meretrizes e a indivíduos normalmente enganados pelas companheiras, com apontamentos escatológicos pelo meio.

Entra no seu recinto profissional ligeiramente enfastiado.
Diz das maiores pérolas sarcásticas e irónicas na reunião e sai aclamado em ombros.

5 comentários:

  1. E como todos nós já fomos, um dia, esse individuo.

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  2. Sei que já o disseram mil vezes...e sou mais uma... e nem escreves para receber elogios... e etc etc... mas tal como gosto de criticar quando algo está errado, acho que é meu dever elogiar quando algo é bastante acertado: Que grande blog! Que grandes pensamentos! Que forma de escrita divinalmente sarcástica! (ou será sarcasticamente divinal?)
    Parabéns! Gosto!

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  3. O que me ri com este post. Já me aconteceu também mas não teria a capacidade de colocar a ocorrência em verbo de forma tão magistral. Adorei.

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  4. Epá... muito grande. Volto mais tarde.

    (ou amanhã)

    (e quem diz amanhã, diz prá semana)

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  5. Ahhhhhh.....transportes públicos! (coração)

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Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.