14.6.10

O síndrome da Makro



Durante estes últimos dias estive ocupado com alguns dos grandes problemas que afectam os portugueses. Sendo mais concreto, essa foi a minha prioridade número 138, o que é também algo tipicamente associado aos portugueses – a sua capacidade de estabelecer prioridades de forma totalmente irracional e, ainda assim, queixar-se disso.

Mas, dentro desses grandes problemas, um deles suscitou-me uma doce memória. Refiro-me, claro está, ao síndrome da Makro. “Então amigo, ainda a inalar vaporizações de loureiro?” questiona o compincha cibernético ao ler estas linhas, enquanto tenta ver quantas moedas de 1 cêntimo consegue colar na testa.
Nada disso, o síndrome da Makro lida com o fascínio tuga pelo açambarcamento e a exposição a grandes quantidades de artigos, das mais diversas espécies, devendo ao seu nome à superfície comercial que constituiu uma febre estranha no seu auge e que hoje, apesar de ainda estar em funcionamento, só deve continuar a interessar a uns quantos profissionais das grandes quantidades.

Mas o que era afinal a Makro? Era, simplesmente, uma superfície comercial virada para os pequenos lojistas que abriu cá nos anos 90, que vendia boa parte dos seus artigos em paletes e quantidades assim para o industrial, a preços ligeiramente mais baixos por isso mesmo. Ou, para o público que almejava o açambarcamento, um oásis.
Não sabendo eu se esta febre era apenas restrita a Lisboa, a verdade é que para entrar na Makro era preciso ter um cartão, que estava na posse apenas de invejados pequenos comerciantes. E, porque o açambarcamento não é para todos, esse cartão dava direito a 1 ou 2 acompanhantes no máximo.

A febre era tal para aceder a esse templo das paletes havia gente que procurava pelo amigo do primo do vizinho da tipa que era da turma para ver se ele emprestava ou cartão ou se podia ir com a malta para, pelo menos uma vez, ver qual a sensaçao de comprar 18 Ice Teas de litro por menos 10 paus em cada embalagem ou um pacote industrial de pastilhas e fazer inveja aos amigos lá de casa.
Depois, chegados lá, mostrando o cartão ao segurança e fazendo cara de quem sabe ao que vai, surgia o deslumbramento de ver caixas e caixas de artigos que estamos habituados a comprar apenas nas mesquinhas quantidades de 1 ou 2 exemplares e que podíamos levar, sem necessidade nenhuma, aos 20 de cada vez. Haveria coisa melhor?

Havia. Pelo meio surgiam sempre umas promoções gigantistas que eram capazes de meter uma televisão de oferta para quem levasse 350 latas de atum Tenório. E era ver o açambarcador de ocasião a contorcer-se e a pensar se seria assim tão mau oferecer latas de atum no Natal à família e amigos.
Com o decorrer dos tempos, o entusiasmo pelo mundo restrito e sedutor da Makro foi-se esfumando em grande parte, mas o desejo de açambarcamento, esse nunca desapareceu. Ainda hoje, na oferta de brindes, no promoção de experimentação, no leve 10 pague 8, há um brilho que desperta na maioria da populaça nacional. É o síndrome da Makro e vive para sempre dentro de nós.

7 comentários:

  1. Ora aí está uma grande verdade. Lembro-me de alguém que queria comprar um carro mas estava indeciso entre 2 marcas e acabou por escolher um que lhe oferecia uma televisão. Há muito boa gente que compra qualquer coisa só por causa do brinde, da oferta, do desconto... Na maioria das vezes, tanto o produto adquirido como a oferta são perfeitamente inúteis, mas acham que fizeram um óptimo negócio!

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  2. Que é como quem diz, os tugas são uns tesos que gostam de promoções.

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  3. No fundo é a velha sensação da "borla" associada ao consumismo. O tuga acha que é de borla comprar mais barato, ou 4 pelo preço de 3, não percebe que não se ganha e até perde. Em casa, quando há menos há que esticar, mas quando há grandes quantidades gasta-se mais, estraga-se mais, engorda-se mais. E depois, alimentar essa falsa ideia de abastança sai caro.

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  4. Hmmm... Isso quer dizer que o quilo de Conguitos era para açambarcar e não para comer na hora?
    Oooops!

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  5. E só podiam entrar maiores de 12 anos.

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  6. Pois é meus amigos o "templo" está de rastos há muito tempo. Hoje, se forem a algumas lojas Makro podem comprar 750 grs de cerejas e, até carrinhos de bébé entram.
    Já me esquecia. Os preços são melhores no Hipers.
    É pena porque antes valia a pena, hoje....

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