19.6.10

Nota final

(continuação)

Lembrava-se apenas de ter entrado no carro, com a porta aberta por um motorista de feições completamente esquecíveis. Ela não seguiu com ele, ia no carro da frente. E depois, o vazio que se instalou com um cheiro adocicado no banco de trás.

Acordou numa sala branca a contrastar com o piano preto à sua frente. A luz provinha de uma lâmpada quase por cima da sua cabeça, sem qualquer janela no quarto. Tentou mexer-se e logo sentiu um frio metálico junto ao seu pescoço.

Toca. O melhor que podes e o melhor que sabes. Toca o que quiseres, mas não pares.

Esboçou uma resposta, mas a voz dela soou mais alto, sem nenhum do calor com que a conhecera.

A música faz-nos…faz-me esquecer…Não me deixa sentir o meu coração, sem música, sem alegria, onde ecoa apenas o ritmo de uma tortura constante.

Explicou-lhe que não a conhecia, que não tinha razão porque estar ali. Que tudo aquilo era um engano.

Shhh,,,Não pares, não pares de tocar, porque os enganos nesta sala não fazem parte desta vida. Não pares porque, ao fazê-lo marcas o fim de um caminho que não tem volta atrás. O teu ritmo será o princípio e o fim.
Não pares ou…

Ele começou a tocar, sem perceber o porquê de sentir que tinha de o fazer.
Ouviu-lhe os passos atrás, afastando-se até ao que poderia ser uma divisão adjacente. Soou um choro abafado e, quando ele se aprestava a olhar para trás, um disparou ecoou pela casa. Por instinto voltou-se para a frente, sem parar de tocar e segundos depois ela estava de novo atrás dele.

A vida dela não precisava de acabar assim, mas precisava que tu o soubesses. Para que não pares e para que não duvides de mim. A tua música será agora o coração de alguém e serás tu a decidir quando deve ele parar.

A irrealidade da situação toldava-lhe a racionalidade. Durante quase dois dias tocou sem parar, com uma angústia no coração que não se reflectia na energia que dispensa nas composições que executa. Sentia-a por vezes mais perto atrás dele, mas nunca teve coragem de se voltar.
Na sua cabeça ouvia apenas “Não pares” e o eco de um disparo.

Já esgotado, ao fim do segundo dia, tinham já passado algumas horas sem ouvir os passos dela. O ritmo abrandava, não por vontade, mas por cansaço. Sentia as forças a abandoná-lo e, a cada tentativa, os compassos perdiam fulgor. Fechava os olhos lentamente, tendo cada vez menos força para combater consigo mesmo.

Pareceu-lhe que tinha apenas passado um segundo, mas aquele sono ínfimo foi quebrado por um disparo. Tinha parado. O seu coração acelerou.
Levantou-se e não viu ninguém atrás de si. A dormência do seu corpo era vencida pela sua necessidade de saber e abriu de rompante a porta encostada.
A primeira coisa que viu foi a moldura caída no chão, com um buraco de bala. Na fotografia, uma menina com longas tranças sorria, sentada a um piano. Ainda a segurar na moldura levantou os olhos e foi aí que a viu. O mesmo vestido negro e o ar cuidado, a pistola a deslizar pela mão caída no sofá e o sangue que ia ensopando o tecido, junto a um rosto bonito agora irreconhecível.

Um recorte de jornal estava agora coberto de pingos de sangue. Debruçou-se e viu a notícia, já com dois anos, que relatava como uma menina prodígio tinha morrido atropelada por um músico de renome que regressava a casa de manhã embriagado, depois de uma noite de excessos.

Deu por si a chorar, como se esta história e este sangue estivessem agora ligados à sua vida para sempre.
Uma voz ainda ecoava ao usar o seu telemóvel, deixado numa cadeira vazia, para ligar ao 112.

Não pares.
A partir desse dia, a música deixou de ser a sua vida. Era agora um instrumento com que incessantemente tentava preencher o coração de outros.

6 comentários:

  1. Escreves muito bem, como já se adivinhava por detrás das pseudo-parvoíces que escreves. :P Tu bem que tentas, mas nunca és parvo. E isto aqui é meio macabro, mas é lindo.

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  2. Concordo com a S*. Acrescento, mas em inglês, se me perdoas: I'm no authority on writing so my opinion is pretty much worthless but I do know what I feel when I read some of what you write and I'm sure I'm not alone in this. It's a gift. Imagination, creativity and the ability to reach others. That's what it's all about, really. But you know that. As S* says, you do try, but silliness does not live here, just stops by every now and then. ;)

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  3. Dei por mim a chorar. Sou uma menina nestas coisas.

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  4. http://telemovelgratis.com/index.php?ref=1421

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