16.6.10

Lenga Longas

Aqui há umas semaninhas, veio a Portugal aquele que é tipo o Papa da organização para a qual viro frangos diariamente. Personagem tipo cromo difícil, como seria típico esperar, revelou no entanto uma perspectiva interessante – tentava passar uma visão idealista.

Digo que isto é interessante porque para chegar ao lugar onde ele está, o idealismo tem pouco a ver com isso. Muita política, golpe de kung fu laboral, jogo de cintura, qualidade e etc e tal. Mas, tal como o alpinista que levou meses a preparar e a treinar para uma subida a um cume difícil, o gajo estava agora num momento de relax, a apreciar a visão no topo da montanha. O tal idealismo depois de camadas de racionalismo empacotado e uns ténis coloridos.

Vai daí, desata a perguntar a todos os presentes naquela reunião a imitar pequena audiência com o Papa “Porque é que quiseste fazer disto a tua vida?”.

O problema neste tipo de questões, quando perante figuras de autoridade, ainda que de uma galáxia distante, é que o idealismo e a informalidade da parte deles não é, regra geral, uma reacção recíproca. As pessoas entendem a coisa como um teste, como algo que tem que ser respondido de modo “brilhante” ou, pelo menos “coerente e racional”, esquecendo-se que o tipo que está a fazer a pergunta daqui a horas vais estar num avião para o outro lado mundo, tentando lembrar-se do nome da cidade que visitou.

A não ser que alguém tivesse dito que tinha querido seguir este caminho para poder sustentar a mãe dele, que era uma cabra de primeira.
O que não aconteceu.

Surgiram verdadeiros épicos de fazer chorar criancinhas como respostas. Queriam mudar o mundo, queriam passar mensagens, queriam mudar mentalidades, queriam fazer as pessoas pensar, queriam trinta por uma linha e um par de botas.
Não duvido que, pelo meio, estivessem ali respostas verdadeiras. Outras foram aquelas que era suposto serem assim. Procuravam o aceno de cabeça positivo, o confirmar que era por ali.

A minha resposta não se ouviu. Estando incluído no grupo dos “cool guys on the back” (por engano certamente), bastou ouvir-lhe a opinião do meu vizinho para tirar a pinta do grupo.
Ainda bem.

Não sei se “Porque gosto de criar e contar histórias, observar reacções e sou bom a dar tangas” fosse propriamente um bom cartão de visita modelo.
Mas seria o meu, a não ser que me ocorresse uma cena com um avô moribundo a exprimir o seu o último desejo nos meu braços. O que iria dar basicamente ao mesmo.

3 comentários:

  1. Os gurus são overrated.
    Eu também ainda tenho de comer muita papinha com Nestum para ser alguém, mas ao menos não vendo a minha mãe por um lugar no parque de estacionamento, ou uma palmadinha nas costas.

    O que muito provavelmente significa que entre mim e a evolução de carreira da senhora da limpeza há uma discrepância mínima.

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  2. Não menosprezemos a coisa. Afinal "ass kissing" é algo que requer tomates (e estômago) e quando chegam ao cume ficam todos contentes por lhes ser finalmente permitido olhar para baixo e sentem que todo o esforço que requereu a sua anulação própria como individuos (no sentido literal do termo) lhes foi compensado. Ah corporate politics, you gotta love it!

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  3. O quê, há quem consiga um lugar no parque de estacionamento só por vender a mãe?

    Fdx, devia ter negociado melhor a velhota...

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