2.6.10

Horroradores convidados

Ocasionalmente vou a conferências ou a coisas que se assemelham vagamente a conferências. Creio que as pessoas que me enviam pretendem com isso criar mais valias, em aspectos tão incisivos como “um dia sem este gajo aqui ao lado é mais saúde mental para quem fica”. Mas, não pensem que vou como orador, coisa que só fiz uma vez na vida, traumatizando jovens estudantes de forma possivelmente irreversível.
Quem me recebe nas conferências espera apenas o básico da minha pessoa – Quieto, calado e sem enfiar mais de três miniaturas na boca ao mesmo tempo nos intervalos.

O que muita gente não compreende é que a ingestão simultânea de diversas miniaturas permite atingir uma espécie de nirvana na avaliação da capacidade dos oradores. E olhem que aprendi isto depois de observar diversos espécimes durante os períodos de catering, constatando que a iluminação e o conhecimento devem derivar de alarvar o máximo no mínimo tempo possível.

No entanto, não é preciso chegar ao nirvana para perceber que, mais do que o tema, é o orador que faz a diferença. Um bom orador até a falar de batatas cativa uma plateia, é como aquelas pessoas que parecem ter sempre uma boa história para contar apesar da sua vida ser plenamente mundana. O tema pode ajudar, a colocação da voz ou o facto de estar com uma tanga de leopardo e uma rosa na boca, mas no fim de contas é a tua capacidade de transmitir algo de forma empática que te torna um orador de nível.

E depois há aqueles a quem corre mal o dia. Mas desses nem vale a pena falar, para não pensarem mais nisso.

Por outro lado, temos os horroradores, que são gente que sobe ao palanque e conseguem tornar a cura da Sida e do cancro numa banhada de todo o tamanho. E o problema agrava-se quando um horrorador se julga um orador de craveira. Seja pela linguagem corporal, a voz de Isabel Campelo ou pura e simplesmente a falta daquele algo mais que nos deixa a coçar a cabeça intrigados em vez de outras partes do corpo desmotivados, preparem-se para uns minutos penosos. Entre piadas que batem na trave, raciocínios desgarrados, incapacidade de reter a atenção de uma plateia e a forma menos sexy à face da Terra para passar um tema, esta gente podia ser usada pelas farmacêuticas para criar o sedativo perfeito.
A agravar o problema está o facto de, seja pelos cargos, seja pelo seu círculo de influências, os horroradores tendem a fustigar audiências regularmente sem a punição adequada.

Parece-me que o que esta malta que organiza conferências não consegue perceber é que ser bom profissional e ser bom orador são realidades separadas. Tirando no meu caso, que junto as duas e ainda sou bom dançarino de sapateado, bom mimo, bom observador, bom provador de vinhos, bom a aconselhar autocarros, bom ao nível de modéstia e, se fosse atum, bom petisco.






PS – Ser bom orador é como fazer stand up com nível, mas com assuntos sérios e levando as pessoas a aprender algo. Até podes ser um merdas quando desces do palco mas, enquanto lá estás em cima, não deixes que te sintam o cheiro.

7 comentários:

  1. Esta história faz-me lembrar alguns "professores" que tive na universidade. Com a diferença que não me ofereciam miniaturas no intervalo...

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  2. Já tive oportunidade de ouvir excelentes oradores, em apresentação de trabalhos, a falar de temas tão POUCO interessantes como "nada", mas, realmente, é mais fácil horrorar uma audiência do que cativá-la.
    Quanto aos "professores" da Tulipa Negra, penso que o problema é pensar-se que ser professor é, apenas, ser bom orador.

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  3. Eu hoje até ia fazer um post a referenciar-te. Sim, eu não tenho por hábito fazê-lo, mas que queres? És um tipo com piada. Mas depois vim aqui e li isto e pensei "bardamerda, o gajo já tem o ego lá em cima".

    E a modos que é isto, censurei-te.

    :)

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  4. Podia agora retractar-me, fazer-me de humilde e dizer que isto é só bazófia, porque até visito o teu blog e sou um fácil quando me oferecem protagonismo.

    Mas tenho que ir limpar a minha plaquinha que diz "O Mourinho liga-me a pedir conselhos" e por isso agora não posso.

    ;)

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  5. Das várias conferências a que tenho assistido, destaco os oradores internacionais. Os nossos são geralmente um tédio... Ah, excluindo o Rodrigo Moita Deus, que apreciei bastante.

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  6. Ora nem mais. Confesso que nutro um gosto acrescido por conceitos formados a partir de pessoas que possuem, como habitualmente digo, noção da realidade.Pelo menos parece.
    (Refiro-me ao PS)

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  7. Assisti há bem pouco tempo a uma conferência em que o João Gil era um dos oradores... Está ao nivel de um Cristiano Ronalno no que toca à fluência de discurso, mas interliga pior as ideias.

    O problema das conferências às vezes é quem as organiza mesmo.

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