2.6.10

Duelo de saltos altos e golpes baixos

Já se tinham visto ao longe. E, nesses eventos, era sempre assim que gostavam de se ver, ao longe. Trajadas a rigor para serem vistas, traziam na ponta na língua o nome do criador do seu vestido, que nunca era o mesmo duas vezes, nem que tivessem de tentar mentir para garantir isso. O mesmo se aplicava ao homem com quem chegavam e ao outro, que era o que tinham em mente na cabeça.

Estavam mais velhas e isso via-se pelo número de operações. No telemóvel, o seu 112 começava por Dr. Qualquer Coisa, Cirurgião Estético. Ainda por cima, as miúdas esbeltas e deslumbrantes, sempre prontas a sorrir para as câmaras com aquele look fresco e pseudo-inocente pareciam andar a crescer como cogumelos.

Por enquanto, chegavam para os gastos. Ainda faziam parte das primeiras listas para qualquer evento e os fotógrafos chamavam sempre pelo nome delas. No entanto, já não o faziam com a mesma frequência e os espaços que lhes eram dedicados em revistas e fofocas não tinham a glória de outros tempos. M

Se uma subia as escadas, a outra ficava no lounge. Se uma corria a sala pela direita, é certo que a outra ia pela esquerda. O porquê de se odiarem já se perdera no tempo. Possivelmente podia nem haver razão nenhuma, mas faltava-lhes a coragem e a vontade de fazer com que as coisas deixassem de ser assim. Além disso, aquela cabra não merecia.

Foi então que os seus olhares se cruzaram de novo. Tinham-no visto ao mesmo tempo, como leoas focadas no mesmo antílope. Não faltava a nenhum evento, sempre com bom aspecto, circulava pela sala fazendo as delícias das senhoras e até de alguns cavalheiros. Às vezes desaparecia misteriosamente, depois voltava apenas para ser de novo o centro das atenções. Nunca ninguém sabia pronunciar o seu nome certo e ele nunca ficava até ao fim das festas. Também, só os desgraçados é que ficam.

Não era de agora, mas ambas tinham uma fixação com ele. Rodeavam-no, abordavam-no com sorrisos e depois de uns segundinhos de convívio ficavam sempre a suspirar por mais.
Hoje não era diferente. Arrancaram as duas ao mesmo tempo na sua direcção, vindas de pontas diferentes do espaço. Uma delas quase que derrubou um daqueles actores velhos que teimava em não morrer, ao passo que a outra teve que se cruzar com a modelo/actriz/instrutora de Pilates do seu 3º ex-motorista da parte do 5º ex-marido.

Nada as deteve. Chegaram ao mesmo tempo, ofegantes e com o coração a palpitar por debaixo do silicone. O empregado mais próximo ficou imóvel como uma estátua e susteve a respiração. Eles já tinham recebido instruções em relação a este tipo de acontecimentos.

Era por isso que ninguém queria ficar com o tabuleiro dos canapés.

Esganadas, mas sem se olharem, à vez foram debicando no tabuleiro, até que só restassem as migalhas mais pequenas. Suspiraram e voltaram costas, com ar de superioridade.

Ele havia de voltar. Voltava sempre.

5 comentários:

  1. Os teus textos são sempre maiores que o meu tempo. Mas quando consigo, gosto.

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  2. Eu sou um desformatado virtual.
    Caibo cá dentro, mas saio das margens ;)

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  3. Em bom, meu caro Mak. Em muito bom...

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  4. Por isso se dão ao luxo do ar de superioridade... volta.

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  5. Bonita clarividência.
    Quase apetece dizer que estamos perante a V.Woolf do Mediterrâneo, mas não se quer que o elogio soe a deboche.

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