6.6.10

Choramingas no cinema

Há quem diga que é coisa de gaja. Há quem diga que é de ser sensível, o que é o mesmo que dizer que é coisa de gaja, mas com o bónus que é saber usar o recurso estilístico chamado eufemismo. A minha opinião é que chorar no cinema, assim como a ver filmes em geral, é um bocado como chorar a descascar cebolas. Hão-de haver umas alminhas cuja reacção fisiológica, mal aparecem os créditos do filme é chorar que nem madalenas, hão de haver outros tantos que prosseguem indiferentes ao refogado emocional.

Eu sempre achei que chorar no cinema era interessante, quer fosse eu ou quem me acompanhava. Posso até dizer que já por diversas vezes verti umas lágrimas, especialmente enquanto me arrependia de ter ido na conversa de quem me convenceu a ver um filme para lá de miserável. O primeiro filme em que me lembro de ter chorado foi nos “Intocáveis”, ainda era eu uma criança e o Kevin Costner não tinha feito uma porrada de filmes peganhentos. O clip que vai aqui em anexo é a prova do crime, embora eu não tenha chorado pela conjugação da bela área de “Pagliaci” e do Sean Connery feito em picanha. Custou-me imenso foi ver que a piada da medalhinha e do esforço de fé que afinal não é passa um bocado ao lado, por causa do dramatismo. E por isso, chorei.



Já mais velho, percebi que também era de bom tom tentar fazer as pessoas ao nosso lado chorarem, de modo a não estarem para ali a refrear a sua emoção desnecessariamente. Desde aproveitar uma cena mais chorosa para me voltar para o lado com o lábio ligeiramente a tremer, com um ligeiro aceno de cabeça, como quem diz “Eu sei, é natural, estou a sentir o mesmo”, até ao oferecer de um lenço para alguém que está a batalhar com a primeira lágrima, ao género de “Essa barragem não pode nem deve resistir”, tenho feito de tudo um pouco.

Ainda relembro, com saudade, quando a minha turma foi ver “A Lista de Schindler” ao cinema, na aula de História. “Temos filme” disse eu, quando vi a carga dramática a aumentar mais do que o trânsito da manhã na 2ª ponte do Feijó. Ao meu lado, uma moça sensível e prendada, horrorizada com o pérfido Amon Goth e o drama de Oskar Schindler. Aguentou, aguentou, aguentou, até que me inclinei para perto dela e lhe segredei.

“Não há mal em chorar. Só de pensar que isto foi mesmo verdade...aperta o coração e...e... é como se o coração ficasse triste, sei lá” (a eloquência ainda não era a mesma, mas o jeito estava lá)

A seguir, parecia a velha aldeia da Luz a transformar-se em Aquaparque.

Desde então, sou uma espécie de menino da lágrima das salas de cinema, libertando os oprimidos das emoções, onde quer que eles estejam.

8 comentários:

  1. Temos de ir ao cinema :P
    Embora duvide que consigas tal proeza comigo

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  2. lol Eu choro muito! O último ~em que chorei foi mesmo o "My Sister's Keeper", e não houve uma pessoa naquele cinema que não tivesse chorado!

    Até que a minha irmã e o meu namorado se desataram a rir na parte da morte da rapariga, enquanto tudo chorava, porque ela estava a chorar compulsivamente e ele começou a gozar. Uma vergonha!

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  3. És tãoooo falso!!

    Gosto.

    enxofre

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  4. Ele há dias em que até vou ao cinema só para poder chorar legitimamente. Muito a sério.

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  5. Pessoalmente, eu gostei d' "Os Intocáveis" pela violência da coisa e não verti uma lágrima que fosse (está bem tinha 16 anos a 1a vez que o vi. E depois, 20 e muitos. E depois 30 e poucos).

    Mas eu tenho em mim múltiplas personalidades, entre elas um camionista. E pelo visto, um psicopata também! Nada feito ;)

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  6. Pois... eu chorei que nem uma Madalena no fim do A Vida é Bela. E não foi só dentro do cinema, foi depois pela rua até chegar ao carro. Durante o dia, em pleno centro de Lisboa, com meio mundo a olhar para mim. Uma vergonha. O pior, foi quando revi em casa e... aconteceu o mesmo. Nunca mais vi o raio do filme!

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  7. Chorar é coisa de gente. E faz bem, é catártico!

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