16.6.10

Aspirações a torresmo


Nos tempos da Renascença e não me refiro aqui ao António Sala (apesar deste provavelmente já ser vivo na altura), os cânones da beleza privilegiavam as pessoas de pele mais branca e tom rosado. Apesar da satisfação que me dá usar a palavra cânone, não posso deixar de sentir alguma tristeza por pensar que, muito possivelmente, isso se devia a um certo elitismo em relação ao fenómeno “tomar banho”.

Embora muita gente continue ainda a fazer do banho uma actividade esporádica, os padrões foram mudando e o bronze começou a fazer parte da vida das pessoas. Primeiro dos pescadores, estivadores e outro tipo de gente que sempre marcou os primeiros passos na moda. Se não acreditam, vão ver onde é que o grunge foi buscar as camisas em xadrez e de onde é que vem a história das camisolas de manga cava justinhas.

Depois, quando se começou a perceber que ter um bronze era como ter um Cartão Jovem, mesmo que tivesses 203 anos. Tinhas um ar mais vivaço, mostrava que andavas a aproveitar o melhor da vida, davam-te descontos quando inventavas histórias sobre férias em Papeete quando na realidade o mais perto que tinhas estado da Polinésia foi quando ias ao Bora-Bora e, o teu ar ligeiramente tostado podia até tornar-te uma pessoa mais apetecível.

Finalmente, o bronze tornou-se algo de culto quando se percebeu que era uma actividade de risco, por causa do Sol e daquelas coisas chatas dos cancros da pele. Imagine-se, de dondocas a sopeiras, de badochas a atletas, de Adónis a Toy’s, havia agora algo que os podia unir e mostrar – eu não vivo dentro dos limites, não me conformo com as regras, tenho um Óleo Johnson dentro da mala e não tenho medo de o utilizar. Com o simples custo de ficar estendido algures à torreira, qualquer um podia dizer “Ah, costumas ir nadar com tubarões? Pois eu fico a torrar até ficar com um bronze de fazer corar um leitão no espeto”.

O bronzear , apesar de não ser modalidade olímpica, tem agora tantas disciplinas que não faltam especialistas em várias áreas. Temos o “Bronze à camionista”, “Bronze de solário”, “Bronze da neve”, “Bronze integral”, enfim bronzes para todos os gostos e carteiras.
Depois, existe também o povo-lagosta. Eternamente injustiçado pelo Sol, por mais que tente não chega ao bronze e sofre por isso. Especialmente, porque continua a tentar e aquilo deve doer.

Da minha parte, tenho a consciência e a pele tranquila. Sou moreno de nascença e de cabeleireiro e, apesar de parecer ligeiramente turco no pico do Verão, sou daqueles gajos que com o Sol usa sempre protecção, porque já sabe que não é uma relação segura.

De torresmos e aspirantes aos mesmos não tenho pena, até porque não gostaria de estar na sua pele.

11 comentários:

  1. Partilho a muito bem explanada opinião (xiii, isto e o uso de palavras eloquentes é sinal que ando a ler este blog em demasia) e não vou à praia sem o chapéu de sol com padrões multicolores, apesar de ser naturalmente moreno - (consequências da colonização portuguesa em Angola).

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  2. Esqueceste do "Bronze de Autobronzeador"...

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  3. O bronze integral é aquele que não engorda, não é?

    É como o nu integral.

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  4. Lá está, bronzes há muitos.

    E sim, o bronze integral não engorda. Do bronzeado/a é que não se pode dizer o mesmo...

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  5. Há um outro bronze, muito famoso por cá na minha terra: o bronze-pedreiro (ou bronze-mestre de obras).
    O bronze-lagosta também é bastante comum apesar de se caracterizar por um ardor e por uma renovação da epiderme na medida em que (adoro esta expressão) estão a pelar.

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  6. É uma sorte nascer moreno, é o que te digo. Eu até conseguir um bronze de jeito, tenho de começar pelo factor 30 e só depois passar ao 15, se não fico como as bifas de Albufeira e afins, mas sobrevive-se. A verdade é que ao fim de muitos anos até já sei as tácticas todas para um bronze de longa duração ;-)

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  7. Desde que constatei, na adolescência, que nunca passaria de lagosta cozida, passei a ser branca. Ao menos distingo-me dos outros no regresso das férias!

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  8. Eu sou aquele ser irritante que parece que anda bronzeada o ano inteiro - e gosto.

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  9. Eu, branca de neve me confesso. Protector índice 30 tem de ser. E depois de..hmmm...6 meses e 9 dias ao sol lá consigo um ligeiro tom amarelo. Ou banco escuro, vamos...

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  10. Eu também sou como tu, mas tenho mais ar de marroquina.
    O que implica ares de espanto quando saco do protector-factor-3o, aos quais se seguem olhares de inveja do tipo "esta gaja usa protecção e ainda assim fica queimada?? cabra!"

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  11. Acrescento o bronze, comum nas tias de cascais, que não sei bem com que tecnologia é que se consegue (provavelmente com a combinação de várias...) O bronze-frango-assado.

    Grande visão transversal com os estivadores e pescadores Mak...

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