18.6.10

Andamento


Não pares.

O sonho de qualquer artista, ao ritmo de um pesadelo. O travo metálico no fim daquela frase durava há quase dois dias.

Não pares.

Os dedos percorriam as teclas mecanicamente, transformando-se nas composições que anteriormente lhe preenchiam o coração e agora ecoavam apenas no vazio.
Quando há dois dias saíra do hotel em que habitualmente tocava três vezes por semana, não sonhava que as coisas se iriam passar assim. Gostava de tocar piano, destacara-se durante a sua formação, mas não era um génio, as pessoas não lhe pagavam por ser ele, pagavam-lhe para que ele criasse uma atmosfera. E ser pago para fazer algo de que se gosta não pode ser mau.

Tinha reparado nela nos últimos dias, mas já podia ter lá ido mais vezes. Sozinha, o que era raro por ali. Não esperava ninguém, nem parecia interessada em convívio e, cada vez que tinha reparado, parecia fixar um ponto na direcção dele, mas nunca se cruzando com o seu olhar.

Não pares.

A sua voz era agora muito diferente da que ouvira quando ela o abordou uma noite à saída do hotel. Tal como ele, tocara todas as notas certas, elogiando-lhe o talento e dizendo que ia dar uma recepção diferente que se tornaria única, se ele tivesse disponibilidade.
Sempre pronto, chutara um preço alto e ela sorrira, dizendo que o iria buscar na data combinada. Pensou que devia ter chutado mais alto.
Agora, pensava que não havia preço que pagasse o que estava a fazer.

Não pares.

Como podia ele parar, se não tinha outro remédio senão seguir em frente.

(continua)

3 comentários:

  1. hmmm... fiquei curiosa para a continuação.

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  2. Não pares! E pára lá com essa mania dos textos aos bocadinhos :-)

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