19.5.10

A vida feita num postal


Olhou à sua volta e viu-se rodeado de felicidade. Daquele tipo de felicidade de cartão que se pode encontrar em festas de aniversário, ocasiões especiais, junto de amigos e pessoas queridas e a servir de tempero insípido a juras amorosas e despedidas sentidas.

Ele era o mestre dos postais inspiracionais, mas faltavam-lhe palavras para inspirar a sua própria vida.

Depois de anos a escrever mensagens que tocaram o coração de muitos e a carteira de ainda mais uns quantos, já não se sabia expressar de outra forma. O que começara por ser uma brincadeira, passara a ser um biscate ocasional, depois uma ocupação a tempo e inteiro e finalmente um império era agora um fardo. Fardo esse que carregava com as mesmas mãos que tinham escrito algumas das frases mais impessoalmente tocantes que o mundo já vira.

O seu sofrimento crescia à medida que já não conseguia simplesmente convidar amigos para jantar, mas sim “Juntar num momento eterno a alegria que é partilhar uma amizade sincera, com aqueles que nos ajudaram a moldar e a enriquecer o coração ao longo da vida”. Para ele ir ver um filme não era ir ao cinema, era “Pausar a realidade que, qual âncora, nos impede de largar amarras e sonhar mais alto e entrar num universo onde a sublime imaginação humana chega para nos dar asas”.
Não tinha por onde fugir, a sua forma de expressão era apenas uma extensão do postal vivo em que se tornara a sua vida. Ir lá abaixo pôr o lixo? Não, o que ele ia era “Tornar a amálgama que sobrevive ao esforço da nossa existência num gigante adormecido que um dia virá relembrar que o universo retribui o que nele projectamos”.
Que tal se nos fôssemos conhecermos melhor? Bem, “Quero que possamos cavalgar juntos rumo a um pôr do sol eterno pintado em tons de amor, em que o teu sorriso faça esse mesmo sol corar de inveja”.

As suas escolhas oscilavam entre ficar mudo e calado e tornar cada momento da sua vida numa barbaridade metafórica que transpirava felicidade gordurosa. Na verdade, ele não conseguia ficar mudo e calado, mas sim “Fechar em si mesmo a nuvem escura que o atormenta, sem sequer deixar que uma lágrima transborde do temporal interno que o fustiga”. E isso dizia muito de quem já não podia dizer nada.

Durante algum tempo tentou de tudo: novelas, claques de futebol, ir a tabernas, viver em tabernas, trabalhar na construção civil e chegou até a sair várias vezes com uma cabeleireira de Paiões. Nada serviu para lhe embrutecer o espírito e a maneira como se exprimia e, no final de contas, o que retirou destas experiências foi que “Viver na simplicidade de espírito é uma benção que escapa a todos aqueles que aspiram a uma grandeza simplesmente redutora”.

Só lhe restava um caminho para acabar com esta sentença feita de sentenças - o suicídio. Ou, como ele lhe chamava, “O ponto final numa frase rica e sonhadora que, por entre vírgulas, exclamações e interrogações, deu sentido a toda uma existência”.

O problema foi a nota. Incapaz de se decidir sobre a melhor maneira de se despedir e sendo incapaz de o fazer sem se despedir, todos os dias escrevia algo tão maravilhoso que lhe parecia um desperdício deixar o mundo numa nota tão feliz e singularmente tocante.

E assim sendo, ainda hoje continua a mandar postais.

7 comentários:

  1. E faz ele muito bem! Que mande muitos para aqui, que eu faço colecção

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  2. ...

    Não consigo que me ocorra nada de cínico, leviano ou cáustico para escrever. Nem olhando três vezes para o gatinho.

    Irra. Daí o nome.

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  3. Escrita 5 *****, do melhor.
    Mas o postal com o gatinho...
    PARABÉNS

    AP

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  4. Isto não é um post. É um sublime encontro de emoções em forma de metafísica comunicacional.

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  5. Excelente!!!

    Não há nada como ler um blog que é um autêntico rol de brilhantes postais.

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  6. Já viste o 500 days of Summer?
    Vê.

    Já o postal..por muito cat person que seja, epá...não. lol

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