7.5.10

Vender a alma ainda é um bom negócio?

Houve um tempo em que as pessoas vendiam a alma com ponderação. Ora queriam a eterna juventude, ora iam pela riqueza absoluta, o poder sem limites ou o coração da pessoa amada (dentro ou fora do corpo, consoante o requinte de malvadez). Foi assim que ouvimos falar dos dilemas do Dr. Fausto, muito antes de ouvirmos o Dr.Phil a falar de dilemas.

Como qualquer líder inteligente de uma empresa de sucesso, o Diabo sabia que isto de comprar almas era um negócio de risco, ainda que moderado. Porque raio havia ele de bancar o que quer que fosse, se o percurso de vida das pessoas já as ia levar direitinhas para o churrasco? Portanto, o importante era negociar a alma de pessoas virtuosas que caíssem momentaneamente em tentação. Aí sim, compensava o investimento, o resto era como dar uma salada a um obeso mórbido. Não ia servir de muito.

Os tempos passaram e o capitalismo desenfreado veio mudar um pouco as regras do jogo. Se vivesse nos dias de hoje, o Dr. Fausto possivelmente contentar-se-ia em vender a alma por um T1 em Telheiras e um iPhone (bem negociadinho). Sabendo disso, o Diabo reorientou o negócio e, tal como a banca perante a crise financeira, passou a ser mais selectivo e agressivo na negociação.

Para quem tenha da virtude apenas a vaga noção de que é algo que costuma estar no meio, não é um bom período para negociar a alma, especialmente se tem a mania das grandezas. Pedidos tipo “ser o novo Cristiano Ronaldo” ou “sacar a Beyoncé” arriscam a terminar consigo a jogar no Carregado e/ou a andar com uma cabeleireira de porte duvidoso, que até se safa no karaoke.
Se é mais idealista e pretende vender a alma pela felicidade com um príncipe encantado esteja atenta ao seu historial moral. O Diabo não perdoa e arrisca-se a viver numa casa linda com um gay que percebe mais de decoração que você e a dormir no quarto da empregada, já que ele partilha o leito com um tal de Orlando.

Caso tenha a plena noção da vida de deboche e falsidade em que se tem espanejado, não se arme em esperto a lidar com o demo. Ele já tem a sua alma no papo e, quanto muito, caso o indíce de religiosos que abusam de criancinhas diminua, pode dar-se ao luxo de a querer arrematar mais cedo. Nesse caso pode ser uma vantagem para si, se for razoável pelo menos uma vez na vida. Uma semanita em Ibiza, ser amigo do porteiro do Lux ou uma ida à montra final no Preço Certo podem ser pedidos com retorno positivo.

Se porventura faz parte da minoria virtuosa que ainda sobrevive (estimada possivelmente como cabendo eléctrico da Carris, mas dos antigos) seja cauteloso. Se bem que a escassez de espécimes do género possa até valorizar a sua alma perante Belzebu, este não dará parte fraca. Onde é que pensa que o pessoal dos bancos aprendeu a história da conjuntura difícil, de um mercado pouco atractivo e do crédito mal parado, que faz com que boas almas paguem pelas penadas?
Esqueça o domínio do mundo ou a juventude eterna, porque o demo lhe irá dar apenas cartões de subalternos, responsáveis pelo departamento de política e da Corporation Dermoestética. Coisas mais triviais como acabar com a fome ou descobrir a cura do cancro também não resultam, porque isso faria de si um melhor negociador do que o Diabo. E, nesse caso, muito possivelmente será Deus e não devia perder o seu tempo a ler blogs.

Seja original e peça algo inusitado. Uma coisa que não lembre ao Diabo. Só assim me parece que possa fazer um negócio razoável. Isso ou guardar a sua alma para melhores tempos. Com a vidinha santa que leva, não me admirava nada que fosse irritantemente paciente.

8 comentários:

  1. Olha que ser responsável da Corporación Dermoestética parece-me ser um bom ponto de partida para dominar o mundo. Estás a substimar o número de dondocas influentes que deformam a cara e o corpo...

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  2. Com a especulação que se vive no mercado de almas, o melhor é aguardar a sua valorização. Ainda assim eu era menina para a trocar por um cérebro.

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  3. No ser diferente é que está o ganho.

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  4. Olha se fôr em Espanha, vender a alma (e a dos filhos também) aos programas cor-de-rosa, é um óptimo negócio. Melhor que isso, só ser toureiro. Ou a Letizia!!! :D

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  5. Toda a gente tem um preço. O valor é que varia.

    :)

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  6. Se pedisse ao Diabo qualquer coisa seria para ser sua assistente, tenho impressão que aproveitaria melhor a vida vestida de vermelho e com um tridente, ainda para mais gosto de sitios quentes. Como toda a gente que conheço frequenta o Inferno, nem que seja uma vez por outra...

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  7. Claro que compensa veja-se o caso do autor do menino da lágrima. Há também um livro muito famoso e que pouca gente leu que se chama "livro de S. Cipriano" que debate o tema. O manuscrito que li tinha o tenebroso aviso na capa de que só o proprietário o poderia ler se o emprestasse a alguém morreriam os dois. Não era grande novidade já assim estava destinado desde que nasci. Então lendo o livro emprestado fiquei a conhecer a história de S. Cipriano um homem que fez um pacto com o demónio, usufruiu dele e depois se arrependeu e até santo se tornou. Moral da história: Façam um pacto com o Satanás, usufruam e arrependam-se que Deus é pai e tudo vos perdoará...

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  8. Espero que tenhas aberto livro pela última folha , 2º dizem é ao contrário ...

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