24.5.10

Ser mulher

Comecemos pelo seguinte. O que vou dizer a seguir tem a validade de um ponto de observação, tal como se eu dissesse “se eu fosse astronauta”. Como não sou, não posso validar o que quer que seja.

Se eu fosse mulher não podia ser como sou. E não me refiro à barba, aos pelos nas pernas e toda uma outra logística associada. Ok, isso também.
Ser mulher nos dias que correm é, pura e simplesmente, um quadro diferente. Nem que seja pelo facto de não se ser homem.

Nas gerações anteriores à minha, havia um papel definido para a mulher. Num mundo dominado por machos, esse papel era delimitado pelos (pre)conceitos vigentes da fada do lar, da mãe extremosa, do virtuosismo mais recatado e do aceitar desse destino como uma verdade absoluta, mais do que algo passível de ser contestado.
Como em tudo, existiam vozes femininas dissonantes, que queriam algo mais e foram mudando algum do status quo e avançando pela libertação da mulher, em prol de um futuro mais nivelado entre sexos, nos mais diversos aspectos. E isto não as tornava a todas revolucionárias e feministas extremistas. Nalguns casos, eram apenas manifestações de mulheres à frente de seu tempo, que passo a passo traçavam caminhos diferentes para os seus filhos e filhas. Sim, porque a educação de um homem baseada em princípios de igualidade é tão fundamental como o despertar de uma consciência feminina.

Chegados aos dias de hoje, traço geral, a mulher está diferente e, se fosse um partido, podia dizer-se que se dividiu em várias facções, em termos de atitude perante a vida. Assim, sem ser muito detalhado, podemos encontrar facções assim:

Moderna – Assumindo os princípios de uma nova geração, não se revê nos padrões antigos. Acredita que há uma maior igualdade, mas que a balança está longe do equilíbrio. Assume-se como liberal, mas possivelmente só em certos aspectos, apesar de saber por norma como se comportar entre linhas. Não tem um comportamento estanque e, por vários factores, pode mudar para uma das outras facções.

Moderna Liberal – Partilha as bases da facção anterior, mas tem uma atitude mais liberal. Joga ombro a ombro com o homem no seu quotidiano, mas tem a noção que no global, enquanto não houverem mais mulheres a pensar assim, o equilíbrio poderá ser apenas pontual. É liberal no discurso e na atitude, mas não tem de ser extremista. Dificilmente passa a conservadora e defende aguerridamente os seus princípios. Nalguns casos, pode tornar-se ultra liberal.

Moderna/Liberal Cor-de-rosa – Gosta de se ver como uma mulher moderna, actual e até liberal, não tanto por convicção absoluta e mais por reflexo. Na realidade, embora tenha um pensamento e atitude alinhados com essas mulheres, partilha-o com uma visão idealizada de uma vivência cor de rosa, muitas vezes inspirada na ficção televisiva/romanceada. Tão depressa pode assumir um comportamento liberal, como a seguir assumir um comportamento aspiricional de cariz mais conservador.

Ultra-liberal – Abraçou a modernidade e o liberalismo, mas equalizou-se ao homem em diversos aspectos da linha de pensamento o que a torna, até certo ponto, similar em termos comportamentais, com as vantagens e defeitos disso mesmo. É condenatória em relação à mulher conservadora e acha que ela é que está lá, face aos dias de hoje. Tanto pode ser uma revolucionária, como ter uma atitude wtf e ser egoísta. Pode oscilar entre liberal e ultra liberal, mas é a sua personalidade que vai definir o seu ultra-liberalismo.

Liberal de Fachada – É uma mulher moderna qb mas o seu discurso é sempre mais liberal do que o seu comportamento. Defende o liberalismo e pode ser condenatória das mulheres mais conservadoras, embora a sua atitude não seja disso um reflexo. Pode às vezes ser até ultra-liberal em termos de discurso e não ter prurido em gabar-se de o ser, embora raras vezes alguém a tenha visto comportar-se dessa forma na sua vida pessoal. Tendencialmente, está mais próxima do conservadorismo.

Moderna conservadora – Não sendo igual a mulheres de gerações anteriores, nem querendo replicá-las, já que têm uma visão mais moderna do mundo, têm no entanto um ligeiro apego superior a valores e comportamentos tradicionais. Não são retrógradas e são tolerantes, mas em certas aspectos não se identificam com algum liberalismo feminino com que convivem. Podem deixar de ser conservadoras ao longo da vida, mas dificilmente serão ultra liberais.

Ultra conservadora – Reagem com extremo negativismo ao liberalismo feminino, embora se gostem de assumir como modernas. Atribuem isso ao facto de haver uma perca de valores nos dias que correm e, sem dizerem abertamente que antigamente é que era, pois também não pensam exactamente assim, também acham que hoje em dia, a mulher liberal é um mau reflexo do que é ser mulher. Podem ou não ter alguma abertura de pensamento e passarem apenas a conservadoras, mas isso não mudará a sua visão do mundo em muitos aspectos.

Isto são coisas genéricas que se retiram da convivência e observação, não sendo obviamente moldes ou bidões para meter pessoas lá dentro.

Pronto, agora vou só ali para um abrigo nuclear e já volto.

23 comentários:

  1. Acredita que eu com a cabeça que tenho podia ser um gajo. Tirando o aspecto fisico, obviamente, assentava que nem uma luva.
    As mullheres são muito complicadas mesmo!

    ResponderEliminar
  2. Ah pois, atirou a bomba e agora é que vão ser elas! Espero que o abrigo tenha mantimentos para uns bons meses e que resista às bombas de estrogenio! Agora a sério acho que traços gerais está lá. Isto de tentar ser uma mulher equilibrada nos dias que correm não é coisa fácil. Eu cá gosto de pensar que me insiro no grupo das modernas-liberais, embora, e porque falamos de mulheres, nada esteja "written in stone".

    ResponderEliminar
  3. Fizeste bem em procurar o abrigo, eu agora também vou aproveitar que isto aqui não é meu e trago mais um balde de napalm:

    Acho que uma grande maioria são mesmo liberais de fachada.

    Não as condeno também, cada um sabe de si. Mas há um volume impressionante de discurso liberal e moderno que vejo como defesa, negação do óbvio, vindo de mulheres que pintam o seu tradicionalismo.
    Podia ser diferente? o que é certo é que podem ser liberais ou não, conservadoras ou não, mas a sociedade em que se inserem ainda não dá resposta à almejada igualdade, o tabuleiro onde estão a jogar tem mais casas pretas que brancas...
    A semana passada falei disto lá no estáminé, como viste.

    ResponderEliminar
  4. Por momentos questionei-me "quem sou eu?". Não tenhas medo Mak, pelo menos de mim. Sou ultra-liberal, mas ainda não ando por ai aos supapos como os homens. Mantenho o conservadorismo de uma lady.

    ResponderEliminar
  5. Orgulhosamente moderna liberal.

    ResponderEliminar
  6. perca de valores? grelhada, espero. que a mulher moderna come menos fritos.

    ResponderEliminar
  7. Pões-te a fazer classificações e o mulherio, que adora estas coisas, vai logo tentar saber em qual se enquadra. :p

    Falta a parte de fazer o quizz que dá como resposta uma destas facções.

    Acho que ando ali pela moderna liberal.

    ResponderEliminar
  8. Por acaso até acho que descreveste bem... Eu sou a moderna conservadora xD

    ResponderEliminar
  9. F***-se, que tu tens um poder de observação demasiado incomum para seres gajo.

    Mas eu, por acaso, dependendo da vantagem que possa retirar, sou várias.

    ResponderEliminar
  10. Por outro lado também acho que, em determinadas alturas do mês, podemos ser todas elas em simultâneo e ainda a Odete Santos:)

    ResponderEliminar
  11. Esta teoria toda merece um questionário para nos entretermos e ficarmos surpreendidas com os resultados.
    Ass: SB

    ResponderEliminar
  12. Bom, posso dizer que sou

    - moderna, pq n me revejo nos padrões antigos
    - moderna liberal - pq sou liberal no discurso e na atitude
    - liberal cor de rosa- pq gosto de um romance cor de rosa
    - ultra liberal- pq sou revolucionária
    liberal de fachada- pq condeno as mais conservadoras
    moderna conservadora - pq gosto de um homem educado que não diga 300 asneiras numa frase
    ultra conservadora- pq nãp abdico que os homens me abram as portas e me deixem entrar à frente no elevador!
    :)

    ResponderEliminar
  13. Quizzstionário?
    Aposto que se o Mak tiver tempo também faz um...

    ResponderEliminar
  14. Acho que sou uma moderna-liberal mas com rasgos de revolucionária, que rotulaste na ultra-liberal.
    Falando a sério, não se podem dividir as mulheres apenas nestes pontos, são poucos para criaturas tão complexas (não complicadas, só complexas). Há muitas mulheres numa só e nem sempre, falando de mim, sei ao primeiro olhar no espelho qual delas acordou nesse dia.
    E não é fácil ser mulher, e não é de depilação que estou a falar...
    Mas gostei do exercício. Beijos

    ResponderEliminar
  15. Quando voltar do abrigo nuclear faça uma análise destas para os homens. Se calhar vai perceber que nem a barba nos diferencia...

    ResponderEliminar
  16. Não revejo nada o Mak aqui neste texto?...

    Tanto que existe para falar sobre esse género pérfido abarrotado de hormonas...

    Onde está o "sumo"?? o sarcasmo???

    Só encontro observações superficiais... politicamente correctas e bajuladoras...

    Eu sou (simplesmente) mulher.

    *Ginja*

    ResponderEliminar
  17. Acho muito mal que a Maya ande para aí a roubar usernames e palavras-passe aos bloggers íntegros.

    Já agora, para mim o bidão mais largo, faz favor. Não sou amiga de apertos.

    :)

    ResponderEliminar
  18. Acho que a maioria das mulheres de hoje em dia oscila entre o moderno e o moderno-conservador...

    ResponderEliminar
  19. Saí agora do abrigo para ir passear o Robbi. Seja ele um cão ou uma lata de cola industrial, não me parece que tenha o direito de lhe negar um passeio ao ar livre.

    Ficam pequenas nota. Um, isto não são molduras para pôr lá retratos. São traços gerais de quadros bem maiores e mais complexos. Ah e são subjectivos.

    Dois, não existem certezas absolutas. Especialmente em relação às pessoas.

    Três, questionários? Mas isto agora é o Reader's Digest?

    Quatro, não gosto de deixar os meus comments a m

    ResponderEliminar
  20. Isto de tentar catalogar as mulheres foi um exercício engraçado e no meio de tantas caracteristicas, óbviamente que teremos que nos identificar mais com umas do que com outras. Ainda assim concordo com a Pipoca dos saltos... é muito díficil enquadrar uma mulher nesses pontos. Até porque hoje em dia quando nascemos independentemente do sexo, somos tratados de igual forma quer pelos pais quer nas escolas. Depois a forma como somos já depende da personalidade, do meio em que vivemos e blá blá blá. Pensar na mulher como mulher e não como pessoa, é o mesmo que olhar para um preto e dizer e dizer que não somos racistas, mas ao faze-lo, não estamos a ver a pessoa, mas o preto e nos tempos que correm não faz sentido

    ResponderEliminar
  21. Está muito bem apanhado, sim senhor.

    Quanto a mim, desconfio que durante todo o mês percorro todas as categorias, depende do humor e dos dias, sendo a tpm o auge de uma ao acaso, também depende das tpm's e nem destas tenho duas iguais ;-)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.