25.5.10

O poder da carta de condução


Espalhados pelas tribos e povos que habitam este mundo existem muitos rituais de iniciação à maioridade. Uns envolvem ferros em brasa, outros acasalamentos com focas, deverá haver mais uns quantos que lidam uma mutilaçãozinha á moda antiga e, pelo meio, há Portugal, onde o “ir às meninas” já não é aquilo que era e o “ir aos meninos” ainda dá, pelo menos, uns processos em tribunal.

Por isso, desde há já uns valentes anos que um dos rituais mais básicos e tradicionais é o chamado acto de “vais tirar a carta de condução”. Por norma, começa algures entre os 16 e 18 anos para machos e fêmeas e pode assumir variantes. Ou é pago pelos paizinhos ou é prenda do avô Armindo e da avó Graciosa, ou vem do suor do trabalho na TelePizza ou do suor depois do assalto à TelePizza. Pode ser prenda de entrada na faculdade, suborno para não fugir com o Carlão ou até descargo de consciência depois de apanhar o papá (ou a mamã) com o leiteiro (ou a leiteira). Pode vir com um carro atrás de prenda no dia a seguir ou ser uma prenda depois uma noite atrás no carro no dia anterior.

As razões não interessam. Traço geral, mal chega a idade, está na hora de ter a carta.

Olha, o palhaço moralista hoje vai dizer mal de quem tira a carta assim que pode.
Errado, o palhaço moralista hoje está de folga e eu tirei a carta mal fiz 18 anos. Agora, se quiserem adivinhar, ali no meio do molho está a razão exacta na base desse feito.

Sempre gostei de testes de escolha múltipla, possivelmente por condizerem com a minha personalidade. Por isso, a parte do código foi canja. No dia do exame suei bastante do bigode, mas porque a porra do sítio tinha o ar condicionado avariado. Apesar de estar convicto que tinha passado, fui o último a sair da sala. Depois de a D.Virgínia ter sido aconselhada a voltar lá pela 7a vez, pois desta só tinha falhado 5 regras e 4 sinais. Ou o Sr. Mamadu se queixar que não era por não saber o código, era por não perceber bem português. Fui o último, quando a mulher que tinha anunciado quem tinha passado fechou a pasta e só depois se voltou, satisfeita com a piada, dizendo “Ah, também tenho aqui a ficha do Sr.Mak”. O Sr. Mak gostou tanto que, ao chegar ao pé dela replicou “Piadinha do c..., hein”.

Durante a parte da condução, tive sorte. Calhou-me um instrutor beirão, com sotaque típico e humor de luxo. Desde razias a prostitutas gritando “Cuidado com essas p.... que não valem o arranjo do espelho”, às travagens a fundo sempre que qualquer gaja jeitosa se aprestava a atravessar a rua – “Mas ela não estava na passadeira...”, “Ó rapazinho, quando a gaja é boa, há sempre uma passadeira”, não faltaram momentos também para explicar a condução e as regras de sobrevivência no asfalto de Lisboa. Isto pelo meio de uns murros na buzina, insultos à escola de condução pelo estado dos carros e ocasionais entregas para a mulher do senhor.

Chegados ao exame, havia sempre a escolha: DGV ou privado. Na DGV vivia o mito dos monstros, os engenheiros do Inferno que só se sentiam bem a chumbar pessoas e a aterrorizar gente em exames. No privado, por mais uns bons cobres, e era a tolerância e a paciência de só chumbar homicidas ao volante no exame.

Aí começava a maioridade. Ou o inferno dos exames repetidos e do adiamento da cerimónia de conduzir um carro lá em casa..

Teimoso como sou, fui pela DGV e tive de ficar raivoso para ficar com a carta. Aos 18 anos, estava feito um condutor adulto. Quanto ao resto, um bandalho infanto-juvenil de primeira.

Até hoje, ambas as premissas se mantêm.

11 comentários:

  1. Call me old fashioned mas a carta tira-se aos 18, sim :-) pelo menos fora de Lx onde não há transportes para todo o lado.

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  2. Resolvi não maiorar.
    Aos 40 anos pensei Ah e tal, se calhar era giro ser maior, mas depois acordei(ou chumbei na condução) e cheguei à conclusão que é muito melhor ser pita até ao fim. E quatro anos passados, continuo com a mesma opinião.

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  3. Eu comecei a tirar aos 17 anos. Estava com pressa de fazer uma racha enorme na parede da casa da vizinha, e como tal foi isso que fiz no primeiro dia que tive a carta.

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  4. Só comecei a tirar aos 26, nem sei bem porquê. E chumbei duas vezes na condução (DGV), ambas com mulheres (dois charutos, na verdade) mal dispostas e histéricas. A segunda gritava tanto que eu tive que parar e dizer-lhe "chumbe-me se quiser mas páre de gritar que me está a enervar". E assim foi. À terceira foi um homem e passei, disse que eu conduzia muito bem.

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  5. O "shor inginheiro" que me avaliou no exame disse-me umas 10 vezes durante 5 minutos de duração do exame: "vamos lá ver, despache-se lá com isso que o jogo está a começar!" - Portugal x Croácia (Euro 96)

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  6. Adorei o post. E eu tou a tirar A1 agora, vê lá :p

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  7. Pois eu tirei a carta já com 21 anos e nunca senti falta dela.

    E foi paga pelo tio.

    Mas não tinha nenhum professor tarado... se bem que o da minha irmã adorava partilhar com ela coisas interessantes como o facto de adorar sexo anal. E perguntava o que ela achava do assunto.

    Deve ter respondido alguma coisa que lhe agradou, que passou à primeira.

    Já eu só passei a condução à segunda.

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  8. Eu tirei aos 26, mas já conduzia aos 25.Quem me pagou foram os Papás porque tinham medo que a filha se metesse em mais alhadas(história a contar quem sabe um dia no meu blog)... Antes disso usava o metro, os autocarros e as pernas...
    Código e condução feitos à primeira porque o desejo de ter a carta era enorme :)

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  9. Muito bom :D "Aos 18 anos, estava feito um condutor adulto. Quanto ao resto, um bandalho infanto-juvenil de primeira".

    P.S. Eu tirei aos 18 ;-)

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  10. Então és só bandalha infanto juvenil, é isso?

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