4.5.10

O fim da linha*


Sempre tinha pensado que, se pudesse, faria aquilo. Estilo, classe e drama num só momento que definiria aquilo que as pessoas falariam um dia dele. E loucura, nunca esquecer a loucura que sempre o acompanhara.

Olhou para o quarto luxuoso. Não era o primeiro que via no género, embora este fosse único. Não pela vista magnífica da praça velha da cidade, onde turistas e locais se misturavam num estranho bailado de fim de tarde. Nem sequer pelos acabamentos luxuosos e modernos da mobília ou da música que tocava discretamente no sistema de som do quarto.
Este quarto era único porque ele o tinha escolhido, no hotel mais distinto de uma cidade onde ninguém o conhecia, mas que ele amava desde pequeno.

Suspirou e olhou para o relógio. Chegara a hora. Ligou para a recepção e pediu para falar com M., com quem tinha passado uns bons minutos a falar de manhã. Como bom funcionário, M. tinha-lhe perguntado porque tinha escolhido a cidade e feito boas sugestões. Sorrira e mantivera-se reservado, respondendo que estava ali para começar de novo. Sem mais explicações, a conversa mantivera-se agradavelmente trivial.

M. atendeu.

“Peço desculpa, mas foi a primeira pessoa que conheci nesta cidade. Não quero causar transtorno, mas o que vou fazer só o podia fazer aqui. Sem culpa de ninguém, é uma decisão minha, queria apenas pedir-lhe desculpas”.
Desligou, indiferente à voz enervada que lhe pedia para ter calma e lhe explicar melhor o que estava a acontecer. Abriu a janela do quarto e espreitou lá para baixo, inspirando o ar morno do entardecer. Fechou os olhos.

O telefone do quarto tocou, tocou, mas ninguém atendeu. Passados 1 ou 2 minutos bateram à porta do quarto insistentemente, chamando pelo seu nome. Sem resposta, ouviu-se o cartão do gerente a destrancar a porta, entrando dois homens pelo quarto. Um deles era M.

Olharam em volta, chamando pelo seu nome, mas logo dirigiram atenções para a janela aberta de par em par. Havia um robe do hotel perto do parapeito e um par de chinelos em cima do mesmo.

“Oh, não”, o gerente levou as mãos à cabeça “Suicidou-se”. Correram ambos para a janela. Lá em baixo, uma multidão estava reunida em volta do que parecia ser um corpo.
Esperaram uns segundos.

Era apenas um daqueles homens estátua que fazia a vida à conta dos turistas. M e o gerente entreolharam-se. “Terá caído numa varanda?”, o gerente não parava quieto, “É melhor vermos, mas parece-me estranho tudo isto. Não me pareceu uma pessoa que...” Interrompeu-se, pensativo. “Isto não é começar de novo”. E, depois de darem uma vista de olhos pelo quarto, que parecia intacto, saíram.

Passados alguns segundos, no quarto vazio ouviu-se um ruído estranho, misto de uivo e choro. Uma porta do armário entreabriu-se e lá estava ele, chorando a rir como se não houvesse amanhã. E, para a pessoa que se tinha registado no hotel não havia.
Limpou as lágrimas, satisfeito com a forma magnífica como tudo tinha corrido, ajeitou o casaco e preparou-se para sair do quarto. Qualquer pessoa normal teria dito que era louco por ter feito aquilo. A experiência e o dinheiro ensinaram-no que, a partir de um certo patamar, se era apenas excêntrico.

Por fim saiu, pronto a começar uma nova vida.




*baseado vagamente num episódio da vida desse estróina chamado Paul Gascoigne

3 comentários:

  1. "Quando um copy deixa de escrever publicidade para escrever séries. Um plano B que deu muito certo."

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  2. Isso seria deveras pós-moderno ;)

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  3. Só posse reafirmar que escreves muito bem.
    Parabéns.

    AP

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