3.5.10

A feira e a banca que não o era

Passeando pelos corredores que já lhe eram tão familiares, surpreendeu-o o facto de estar a sentir aquela dormência que surge por vezes depois de vermos de seguida, por exemplo, cem quadros de grandes autores. Ao fim de algum tempo, mais um Picasso ou menos um, já não faz muita diferença.
Mas, em relação a livros era a primeira vez que lhe acontecia.

Resolveu afastar-se um pouco para suster aquela avalanche de cultura e reparou numa banca que não parecia uma banca. Até porque não era uma banca, mas simplesmente uma mesa, com uma mulher lá sentada. Em cima da mesa, uma folha em branco.
Curioso, aproximou-se. Ela sorriu quando o viu.

- Isto não é bem uma banca típica – ele deu por si a descrever aquilo que já era óbvio – não é um formato muito comum...

A mulher da banca que não o era continuou a sorrir.

- Nem todas as histórias têm o mesmo formato – A voz era alegre, condizendo com o sorriso.

Ainda mais intrigado, respondeu – Uma folha em branco no meio de um mar de livros ainda não é propriamente uma história.

- Um carro, mesmo parado e sem ninguém lá dentro, não deixa de ser um carro.

O sol que lhe batia na cara fazia-a franzir o rosto, acrecentando-lhe um certo ar divertido, que ele não conseguia propriamente acompanhar.

- Portanto, este stand, esta banca ou seja lá o que isto for vende folhas em branco, para gente inspirada pelo ambiente à volta, é isso?

- Não. Aqui não se vende nada, mas damos tudo - Duas pessoas pararam, olhando para a banca que estava longe de o ser, mas rapidamente seguiram o seu caminho.

- Olhando para aí, não sei como podem dar tudo, muito menos histórias em papel em branco.

Ele fitou-a, com um gesto irónico, encolheu os ombros como se não esperasse que houvesse resposta para a dúvida que lançara.

- Não se preocupe, as histórias hão-de aparecer. Aqui ou noutro lado.

E encolheu os ombros, imitando-o, mas usando o seu sorriso como ponto final.
Ele acenou-lhe e seguiu caminho, disposto a esquecer histórias, folhas em branco, sorrisos bonitos e frases enigmáticas. Mergulhar de novo em livros ia fazê-lo refrescar a cabeça.

Um dia depois, deu por si a sorrir. Estava a escrever uma história, mais precisamente uma história sobre uma rapariga e uma folha de papel em branco que tinha conhecido numa tarde de sol.
Finalmente percebeu - as histórias nem sempre crescem no sítio onde nascem.

8 comentários:

  1. Gosto muito, muito, muito deste texto! :-)

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  2. Onde posso colocar uma banca destas? Tenho umas quantas folhas em branco. Pode ser que apareçam histórias bem mais parvas do que aquelas que me têm aparecido.

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  3. Hoje de manhã é lirismo, à tarde é bacalhau à brás.

    Já quanto ao licenciamento de bancas, creio que é um sector muito concorrido...

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  4. Hum gosto muito... sensibilidade imensa mak. Não posso acreditar que o teu único neurónio o tenha escrito.

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  5. Mais um fantástico texto. A tua capacidade de transmitir pela escrita uma simples história (que não é tão simples) é estrondosa!

    Tu és... Makgenius!

    (desconfio que o lugar é a feira do livro e que encontraste por lá um tesouro!)

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  6. Tenho ideia que ando a perder boa parte da realidade, já que a facilidade de criar episódios e universos nem me obriga a sair da cadeira.

    Só ainda não materializo compras em casa ;)

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  7. Excelente texto...

    E a maior beleza de uma folha em branco é precisamente a de poder vir a conter qualquer história, qualquer drama, qualquer comédia...

    E mais... há muitas histórias que nunca deveriam passar de uma folha em branco.

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  8. :( Na web não bancas com páginas em branco pois não? ;)

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