18.5.10

Direcção Geral dos Objectivos de Vida

Aquele postal em cima da mesa não podia ficar ali para sempre. Chegado a casa há mais de uma hora, pousara-o e ficara a olhar para ele. Vinha da Direcção Geral dos Objectivos de vida e ele sabia que aquilo só podia significar uma coisa. Decidiu-se e começou a abri-lo muito devagar, como se pudesse retardar o que lá vinha escrito.

“Caro Senhor,

Amanhã irá atingir o seu 40º aniversário. Ao abrigo da lei vigente, cumpre-nos informá-lo que até ao momento não dispomos de qualquer registo em relação à realização de qualquer um dos três objectivos de vida mandatórios para cada cidadão. A não apresentação de prova de cumprimento de, pelo menos, um deles até ao final do dia de amanhã irá determinar a extinção dos seus privilégios de cidadão. Deste modo, a ausência de confirmação da sua parte resultará na sua despromoção a cidadão de segunda.

Gratos pela sua atenção.

D-GOV


Merda. Ele não sabia que havia um controlo assim tão apertado. Desde que o Governo tinha instituído as categorias de cidadão que os objectivos de vida começaram a ser mandatórios e com prazo estipulado. As pressões ambientais justificavam o “plantar uma árvore”, as necessidades de rejuvenescimento da população traduziam-se no “ter um filho” e a iliteracia crescente era combatida pelo “escrever um livro”. Para os cidadão de segunda isto era um incentivo à subida de categoria, que só se verificava pelo cumprimento dos três requisitos, para os de primeira (por nascimento) era um aviso e uma sentença pendente.

Ele estava, como se diz na gíria, a suar do bigode. Quase quarentão e bem apessoado, tinha levado a vida sem grandes preocupações nessas matérias achando que, pura e simplesmente, um dia iria assentar. Entretanto, o preço de plantação de árvores tinha atingido um preço astronómico e mesmo quem tinha conhecimentos, raramente possuía dinheiro para árvore+terreno de plantação. Até porque, por essa altura, raros eram os cidadãos de primeira que não chegavam aos 25 anos já endividados até ao tutano.

Bem, talvez pudesse escrever um livro...Rapidamente se apercebeu que escrever um livro num dia não era o mais difícil. Difícil seria fazer que o Comité de Determinação de Objectivos Literários o aceitasse como tal. É que, nos últimos vinte anos, a produção literária aumentara de modo tão gravoso que tinham sido impostos limites e barreiras. Antes da efectivação dos mesmos, quase todos os blogs tinham sido convertidos em livros, não havia figura pública que não os tivesse e qualquer desgraçado já tinha vendido o seu relato de vida. Até os analfabetos já tinham ditado e editado os seus livros.

Restava-lhe ter um filho. Bem, mulheres já ele tinha tido com fartura, mas achava que um filho era uma âncora que ele não estava disposto a lançar.
Cidadão de segunda...
Bem, talvez uma âncora não fosse uma coisa tão negativa. E, de repente, pensou nela. Eram vizinhos, conheciam-se bem, tinham saído muitas vezes juntos. Na verdade, já tinham feito muita coisa juntos e havia uma clara empatia. Ela era uma viúva muito jovem, pois o marido, na ânsia de cumprir os requisitos para ascender a cidadão de primeira, tinha sido esmagado por uma árvore que tinha acabado de plantar e à sombra da qual se tinha sentado a tentar escrever as últimas páginas do seu livro.

Grávida na altura, foram-lhe concedidos estatutos honorários, em função da desventura conjugal. Criara a filha com dedicação e, mesmo quando saía com ele, só o fazia depois de garantir que ela ficava bem cuidada. De certa forma, ele sabia que ela estava à espera dele.

E ele fizera-a esperar. Talvez fosse altura de andar para a frente

Bateu-lhe à porta, embaraçado. Disse-lhe que amanhã fazia anos e ela sorriu. Entrou e acrecentou que só havia uma prenda que queria – ela. Embora tivesse deixado cair algumas lágrimas, não pareceu surpreendida. Abraçaram-se.

Nesse momento, ela pensou que tinha sido uma boa ideia inventar o prazo dos 40 anos, em vez dos 50 como era de lei. E de como era uma vantagem ter uma irmã finalmente a trabalhar no DGOV, até cartas com carimbos governamentais conseguia expedir.
Também, se não fosse assim, não havia maneira do raio do homem andar para a frente.

14 comentários:

  1. Muito bom este texto. Bem escrito...estruturado...com o climax e o desenlace....sim sr......bem haja á blogsfera.

    ResponderEliminar
  2. Aos quarenta todos os círculos de estreitam, a pressão aumenta e é a idade de ir ao toque rectal. Uma ternura de idade. Beijos

    ResponderEliminar
  3. Coitado do rapaz, nesse caso.

    ResponderEliminar
  4. Eu bem que precisava de uma cunha DGOV, mas como tenho tão pouca sorte nem ai me safo.

    ResponderEliminar
  5. Gostei! Muito bom!
    Parto para uma tarde no estaleiro com um sorriso na fronha!

    ResponderEliminar
  6. Adorei !!!
    Muito bonito, Parabéns!

    AP

    ResponderEliminar
  7. Gostei! muito. Posso fazer uma referência no meu estaminé?

    ResponderEliminar
  8. Fantástica esta sátira social.
    Aqui conseguiste aludir a coisas tao reais e presentes no nosso dia a dia: Teorias fantásticas que quando em prática resultam em verdadeiros ridicularismos, a banalização de coisas que deveriam ser importantes e valorizadas e a, cada vez mais constante, resignação à falta de valores, objectivos e aspirações.

    Gostei mesmo muito. Temo que isto não esteja mesmo nada longe da verdade, mas ainda sou daquelas que acredita que cabe a cada um de nós mudar mentalidades e marcar alguma diferença.

    ResponderEliminar
  9. Obrigadinho e estejam à vontade.

    Aliás, estou quase disposto a ir à má fila tentar vender folhas de Word com este texto na Feira do Livro, tipo nogats manhosos.

    ResponderEliminar
  10. Lindo!!! Mais vale tarde que nunca!

    (E obrigadinha por me teres lembrado que nunca plantei uma arvore, não escrevi um livro e não tenho filhos! ) :)

    ResponderEliminar
  11. Há histórias de amor para todos os gostos... nem que seja "amor" à forca (perdão: força). Ficou a faltar o "e viveram infelizes para sempre".
    Pessimista, eu? Nahhh, nada disso!!!
    Ass: SB

    ResponderEliminar
  12. Fantástico!

    Por outro lado, deixou-me a pensar que estou a chegar à idade de começar a ser chamada de cidadã de segunda...

    ResponderEliminar
  13. que texto brilhante :)
    credo... qualquer dia também sou cidadã de segunda...
    será que já ter plantado flores conta? e ter três afilhados? quanto ao livro, não me parece que me safe. nunca trabalhei como streaper, nunca fui namorada do pinto da costa, nunca passei uma noite com o cristiano ronaldo, jesus nunca me veio ditar livros... enfim... estou tramada :))

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.