27.4.10

Um caso e um carro mal parado

Carro desconhecido lá na rua era sempre motivo de alarido.
A noite estava quente e, mais do que copos e saídas, o pessoal queria era aproveitar a brisa na esquina da mercearia do Sr. João para desbastar temas da maior relevância. Entre os últimos resultados da Academia e o facto da Carla Susana andar ou não com o Careca, havia sempre quem tivesse opiniões divergentes, mesmo que dissessem a mesma coisa. Calado é que não ficava ninguém, tirando quando o estivador vinha à janela perguntar se sabíamos que horas eram e se queríamos que ele viesse cá fora. Normalmente, não queríamos.

Até que chegou o carro.

À primeira vista, parecia o do Pedrinho. “Ná” disse logo o cromo dos carros, o do Pedrinho tinha outras jantes e um autocolante no vidro do lado. O carro abrandou ao pé da paragem e parou uns metros mais abaixo. Não se conseguia ver quem era, aqueles vidros pareciam meio baços.

“Deve ser o Zé, o Bulldog” avançou-se sem grande confiança “Népia, népia, o Zé espetou-se em Monsanto o mês passado, a dar voltas nas rotundas. O seguro ainda não deve ter pago para o gajo andar de bólide outra vez”.
O sacana do carro parado e não saía ninguém. Estavam a brincar connosco.

“Só se for daquele gajo do stand, o Tó”. “Aquilo??” houve logo quem se risse “O Tó não anda nestes, é muito fino e os “amigos” dele depois não gostam”. Mais risos.
“Então e o Orlandão?”, “Fónix, esse gajo já não mora aqui”, “Por isso mesmo meu, separou-se da mulher, mas anda no controlling”. A proposta não convenceu “Esquece lá a cena, o tipo é agarrado, andava num Panda todo partido e agora vinha para aqui naquilo? Só se roubasse um banco...”

A dúvida continuava a agitar as hostes. Já do lado dele, nem um movimento e às horas que eram, já nem autocarros haviam para o obrigar a sair dali.

“Já sei, já sei” todos se voltaram “É da mãe do outro puto, aquele do apelido estrangeiro. Ela não é enfermeira? Pode ter carro novo e ter chegado agora do turno”. Alguns olhares de concordância, a coisa parecia estar a resolver-se. “Não pode”, avançou o Joni, com ar pensativo “A minha mãe falou com ela hoje à tarde, ela faz as manhãs e não conduz, pelo que ela me disse”.

Desânimo. Aquele carro estava a estragar a noite.

“Espera, espera”, o Roger parecia agora irritado “Na volta é aquela malta lá de cima, do bairro. A semana passada aviaram num puto da Academia, o irmão dele foi lá acima arranjar confusão e agora...na volta querem arranjar estrilho”. “Bora lá ver, bora lá ver”, disseram logo um ou dois. Não estávamos ali para ter que levar com aqueles filmes.

“Mas vamos como, assim à campeões?”, “Fónix, somos seis, estás com problemas?”, “Problemas tens tu meu palhaço. E esse corte de cabelo?”, “Brincamos, é?”.
De repente, o barulho de um motor.

“São os gajos, devem ter ouvido, bora lá ver”. O vidro abriu. Parámos, mas só de falar, já que ainda não nos tínhamos mexido. Alguém atirou um papel pela janela e o carro arrancou suavemente, cortando na rua do eléctrico.

Corri na direcção do papel. Vieram todos atrás de mim. Apanhei-o e desdobrei-o cautelosamente.
Não estávamos preparados para o que encontrámos.

Uma pastilha elástica e o facto de ir abrir um restaurante indiano ali ao lado.

Carro desconhecido na rua dava sempre alarido. Disso não havia dúvida.

6 comentários:

  1. Era uma pastilha de que sabor? É que são os pequenos pormenores que fazem a história.

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  2. este post ultrapassa tudo... Aposto que tem aí alguma mensagem subliminar escondida. É que se não for assim, what the fuck? :P

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  3. @ B - Como já estava mastigada, optei por não a provar. Era jovem e inocente...

    @ S - É toda uma lição de subliminaridade. Ou então não. O gozo está no processo de tentar descobrir.

    (já vi que o serão é reservado aos comentários deixados por consoantes)

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  4. Nem li o post e só comentei para não te ficares pelas consoantes! :p

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  5. Se neste universo semi-ficcional isto se tivesse passado há 15 anos, posso dizer que ainda é bom.

    E é sui generis.

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