26.4.10

A triste história de um olho roxo

Já não é a primeira vez que me acontece. Também já não é a primeira vez que falo nisso. Aliás, um passado de desporto e vida algo desregrada, juntamente com um triste feitio irónico, contribuíram para que este advento seja cíclico, tipo cometa Halley.

Tenho um olho arroxeado.

Para alguns é sinónimo de vergonha. Para outros de bravura e bravata. Há até quem faça textos sobre isso. Seja como for, tal não muda a realidade.

Há roxo em redor do meu olho e não são sobras de uma festa glam rock.

Não é difícil aprender que um braço lançado em velocidade que falha uma bola de basket e acerta na cara de um indivíduo, tende a deixar marcas. Consta até que esse indivíduo, com grande presença de espírito, proferiu até uma frase de grande gabarito, que marcou jovialmente o acontecimento:

“F&%”$-se, car&$#”0, olha lá essa m#$%@”

A dor não é muita, até porque a fita é maior do que as consequências. No entanto, dado que o evento tem lugar a uma sexta feira à noite, com toda uma panóplia de eventos sociais pela frente no fim de semana, um grande problema se levanta.

Como é que se vai contar a história do olho roxo?

Quem leva uma vidinha sã, diria mesmo sensaborona, vê nas pessoas com olhos roxos uma fonte de emoção, agitação e entusiasmo social. Terá sido num clube de strip, a regatear? Terá sido atacado por Jeovás, depois de pisar o Sentinela? Terá feito um risco num Fiat Panda alheio? Terá feito uma qualquer acrobacia no leito que só o facto de a estar a filmar poderá provar que foi verdade? Ou terá, pura e simplesmente, enfrentado mais de dez meliantes, enquanto comia um sorvete?

O olho roxo é o que menos importa. A maneira como o vendes aos outros é que faz a diferença.
As pessoas querem preencher a emoção e o gozo que falta na sua vida sorvendo as aventuras e desventuras dos outros. Querem chegar a casa com o conforto de saber que se dão com gente que tem aventuras estranhas para contar.

Desculpem, fiquei com o olho roxo a jogar basket.

A desilusão instala-se. Há um certo desânimo nos olhares retribuídos. É só um parvo com a mania do desporto. Já devia ter percebido que isso não é vida. E agora, que vamos dizer no dia seguinte, quando precisarmos de algo para contar?

Mais vale dizer que o tipo anda metido na droga. Seja como for, deve estar a mentir com a história do basket de certeza...

Um olho roxo não merece uma história assim.

14 comentários:

  1. Também já andei assim. Eu dizia que tinha caído na banheira e enfiado um frasco de Palmolive no olho. Entretanto o meu vizinho que era gay envergonhado também teve problemas com frascos de Palmolive. Foi ai que decidi mudar de marca e recorrer à APAV. Não há que ter vergonha. Pior que levar umas lambadas é teres encontros imediatos com frascos de champô Palmolive.

    ResponderEliminar
  2. Eu uso sempre o classico "devias ver como ficou o outro..."

    ResponderEliminar
  3. Compreendo bem a frustração.
    Eu costumo dizer que se é para ser atropelado, que seja por um carro decente. Qualquer coisa imponente, um bugatti veiron, um ferrari, um lamborghini.

    ResponderEliminar
  4. Mak, meu caro, desejo sinceramente que ela tenha valido a pena...

    ResponderEliminar
  5. Que balde de água fria... ainda por cima com um post ali em baixo com tanto potencial para encadear com um post sobre um olho roxo. Enfim... lá tenho que ser eu sozinha a tornar a minha vidinha menos sensaborona, não é?
    Vamos lá então...

    ResponderEliminar
  6. A vida por vezes consegue ser mesmo injusta e irónica! :)
    Óptima semana*

    ResponderEliminar
  7. Muito bom :)
    um olho roxo é mesmo assim.

    ResponderEliminar
  8. @ Miss - Ainda não estou no ponto de jogar basket contra frascos só para tentar ganhar... Assim sendo, na APAV também atendem vítimas das circunstâncias?

    @ Sam - Esse é um clássico. Embora o uso do plural acabe por ser mais o meu estilo olímpico.

    @ Prezado -Por acaso, na 6a acabei a noite encostado a um Lamborghini amarelo. E não foi por estar a ser apanhado a tentar roubá-lo...

    @ Pipoco - Na altura, pensei que sim. Mas depois acabei por perder o jogo. E isto não é uma cena metafórica.

    @ Gata - Não podem estar sempre a contar com a minha imaginação febril para salvar o dia. Desta vez deixo-vos a liberdade de inventarem o que quiserem. Ele (o olho) não vê mal nisso.

    @ A invisível - Já os braços de jogadores de basket, são duros e com retoques ósseos de malvadez. É assim a vida...

    ResponderEliminar
  9. @ coffee - Hoje já vi que tenho um olho para o negócio.

    ResponderEliminar
  10. Tal como dizia o outro

    "é droga, é!... O teu avô também andava metido nos diabetes e morreu atropelado por uma mota..."

    ResponderEliminar
  11. És um homem muito criativo, arranjas uma história muito mais emocionante mudando um ou outro pormenor da história, e passas a ser um herói! ;)

    ResponderEliminar
  12. Hum por acaso, sempre que vejo alguém esmurrado, penso logo em violência doméstica... deve ser do dramatismo do assunto. :!

    ResponderEliminar
  13. Se calhar já estás na idade de, mantendo a mania do desporto, arranjar algo mais apropriado. Tipo hidroginástica, damas, ou pétanca... Curling tb era bom, mas cá não se pratica.

    ResponderEliminar
  14. Há por aqui leitores que ansiavam mais por uma lesão nos dedos do que no olho...;)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.