19.4.10

Saudosismo 100% Algodão

Já por mais de uma vez fui bombardeado com a questão da saudade, do saudosismo e da beleza latente que transparece e entristece em tão lusitana palavra/conceito. Ora eu, pouco dado à elegância poética (tirando uma fina capa que uso apenas para me conferir ar sensível), tenho sobre o assunto uma visão maniqueísta – ou és ou não és.

Se és um saudosista fofinho e peganhento, tendes a lamentar-te do que não tens, do que já tiveste mas agora não tens, do que pensaste que já tiveste mas na realidade não tinhas, do que poderias ter se não tivesses deixado de estar onde estavas para ter o que tinhas ou do que já não podes voltar a ter, pelo que as leis da física assim determinaram.

Se não és um saudosista fofinho, estás agora a regozijar-te com as linhas anteriores, pensando que eu sou como tu. Desengana-te coração empedernido, pois tu és daqueles que desfruta apenas num instante fugaz aquilo que a vida te oferece. Vives o momento e fazes bem em fazê-lo, mas ao quebrares a tua ligação com o mesmo, negando toda e qualquer saudade, mesmo que não em grau demasiado doentio, mostras uma certa amputação emocional que não te faz bem.

Mas então afinal, de que lado estás tu? Esta é também uma pergunta que oiço frequentemente, após acirrar discussões em que não sou parte interessada e que, neste caso, poderá tocar de perto aqueles que não tiveram de ir ao dicionário informar-se sobre as virtudes do maniqueísmo. Ah, e também aquelas pessoas irritantes que fazem de tudo uma questão de lados.

Não estou de lado nenhum, simplesmente acordei dividido sobre o facto de ser ou não possível sentir saudades de uma peça de roupa, uma T-shirt que me acompanhou nos últimos 15 anos e rasgou a última ponta de dignidade que a unia à vida útil no passado fim de semana. Aliás, se o vestuário falasse, há muitos anos que esta T-shirt me andaria a extorquir dinheiro, depois do que já presenciou.

E, se eu não me conseguir sentir bem com este assunto, farei com que se interroguem sobre a matéria até sobre os talheres de plástico que usaram hoje para comer o resto do ensopado de borrego do fim de semana.

5 comentários:

  1. Aaahhh como eu sinto saudades de um ensopadinho de borrego...

    ResponderEliminar
  2. Eu tenho saudades do tempo em que a roupa mais cara era boa. Agora sai uma bela porcaria.

    ResponderEliminar
  3. Eu costumo ter esse sentimente de saudosimo. Por isso mesmo custo a separar-me da minha roupa interior. Mesmo quando já tem os elásticos interiores. Não sei se este comentário terá alguma relevancia, mas vindo de alguém com problemas mentais, certamente, será desculpável

    ResponderEliminar
  4. Not sexy. Not sexy at all...

    ResponderEliminar
  5. Nem de propósito. Há dias também me deu para a nostalgia. Do que não fiz, e de como é aborrecido a vida se ir construindo de escolhas que condicionam irremediavelmente determinadas vivências.
    Com muito menos graça e profundidade, diga-se.

    Mak, cada vez gosto mais de ti. Por seres Mau assim.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.