30.4.10

Programas da manha

O título pode ser enganador, por dois motivos. Primeiro porque o leitor mais picuínhas poderá dizer “Ah, manhã leva acento não leva?” – sim leva, mas é de manha que se trata e não de manhã. Segundo, porque chamar-lhes programas é como chamar literatura às autobiografias dos jogadores da bola.

Mas, vejamos primeiro o público alvo dos programas da manhã que infestam a televisão – Velhotes, reformados, gente doente e/ou acamados, desempregados e estudantes ressacados ou a caminho disso.
À partida diríamos que é malta que já tem problemas suficientes, sem necessitar de acrescentos. Ou, numa perspectiva mais positivista, é gente que devia procurar o melhor da vida ou, pelo menos, algo positivo.

O que é isso tem a ver com os programas da manhã? Nada e, se procuram eutanásia, mais vale ligarem para o Dr. Kervorkian que, apesar dos anos na choldra, ainda é gajo para dar umas dicas.

Pelo que me é dado a conhecer, eis parte do programa da SIC ontem pela matina. Um camafeu violou duas mulheres que conheceu no hi5. A namorada, ao telefone, contradiz uma dicção que aparenta alguma presença de espírito “Ah, tenho dificuldade em acreditar, ele sempre foi meigo comigo e se elas o convidaram para ir lá a casa, foi consentido”. Apresentadora, acompanhada por jurista e ex-polícia, contrapõe o facto de ele também ter diversas armas em casa. Otá...perdão, namorada contrapõe “Eram falsas, não eram arma de verdade de certeza” – na imagem vemos mesinha de detenções da polícia com arsenal de elevado potencial. Apresentadora volta à carga “E, se se vier a comprovar que ele é efectivamente culpado, considera ainda assim um futuro com ele?”. Urs...perdão, namorada “Ah, ele é muito boa pessoa, sempre preocupado e carinhoso, até me disse – continua a tua vida sem mim. Continuo a achar que as coisas boas que ele tem valem muito mais que os aspectos negativos”.

...Não consigo acrescentar nada. Nem eu consigo ter uma visão tão deturpada da realidade. É um violador armado e perigoso? Compensa na confecção de uma óptima lasanha...

Por esta altura, já diversos violadores estão a ligar para a produção do programa, em solidariedade e perguntando a morada da namorada do outro. Têm também amor e carinho para partilhar.

Mas, seus glutões por castigos mentais, não pensem que isto se fica por aqui. Pequeno intervalo e voltamos, agora para animar a sério. Oh, mas esperem, entra um casal, com a mulher já a chorar ainda não se sentou. É Nelinho, jogador do Benfica na década de 70 e sua esposa. O filho, de 25 anos, envolveu-se num despique automóvel, encostou na bomba com o outro condutor, envolveram-se à pancada e, quando se vinha embora, foi baleado e morreu. Choram, como é natural. A apresentadora faz uma pergunta pouco vulgar “Então, Dona X, tem sido difícil?”. A senhora chora e diz que só não se suicida porque tem mais filhas. O Nelinho chora. A decência e decoro choram.

A exploração emocional é notória neste tipo de programas. Pelo meio do rancho e do comediante ocasional, a versão moderna do circo romano vai ditando conteúdos. É fácil, se é desgraça vende. E, se nalguns casos, a capa da solidariedade se ajusta, com o apoio a um criança com uma doença complexa ou a alguém a quem falta algo básico e essencial, há depois um grande vazio para além da miséria que se vê.

Estou bastante mais focado na minha carreira de parvo do que na de moralista, nem sequer venho com a história de que se fosse um programa cultural ninguém via. Mas, se no pastelão da Oprah, o desfile de cenas quotidianas tende a equilibrar e vemos uma boa dose de finais felizes ou pelos com uma lição de vida, por cá chega ser desgraçadinho para dar uma boa história. Para quê florear com finais felizes.

Nunca irão faltar conteúdos. Até porque a desgraça dos outros ajuda a esquecer a nossa.

9 comentários:

  1. Já reparaste como os programas da manha são tão parecidos com os blogs da manha?

    Bom, mas o que é facto é que a miséria vende porque o ser humano não passa de um bichinho muito sádico e perverso que gosta de se alimentar do pior dos outros bichinhos à sua volta.

    ResponderEliminar
  2. Lamento informar-te, mas o teu comentário tem bicho :p

    ResponderEliminar
  3. (resposta à Mak, o mau)

    Sim, é por isso que tomo comprimidos para dormir...

    ResponderEliminar
  4. Não tenho a certeza, mas desconfio que os "pugramas" (parece que não se lhes pode chamar programas) da tarde são tão manhosos como os da manha, perdão, da manhã.

    ResponderEliminar
  5. Eu admito que não aguento esses programas. Às vezes ligo a tv, só para ouvir barulho, e ouço aquela rubrica das declarações de amor. Fico CHEIA de vergonha e não é nada comigo.

    Agora essa atrasada mental desculpabilizar o violador... poupem-me.

    ResponderEliminar
  6. Ah, estiveste em casa e não resististe.

    Mas olha que a Oprah não é melhor. Ela só é boa a disfarçar um programa que no fundo, é uma loja de horrores medieval. Tem lá os ingredientes todos. Mas ela fala devagar e tem um cenário que custa a divida externa do Burkina Faso.

    ResponderEliminar
  7. Afinal o meu sono persistente pela manhã, safa-me de mais maleitas para além das olheiras... :P

    (e nem vou comentar a namorada do violador, às vezes pergunto-me se estas pessoas existem mesmo, é que a realidade ultrapassa sempre em tudo a imaginação, até na parvoíce!)

    ResponderEliminar
  8. Acho que é o país que merecemos...
    a 'malta' vive assim
    gostam disto
    Porra não põem os pés ao caminho porquê?
    Porque gostam!
    Blá blá blá
    Programas da manha e da manhã...
    Segue para os programas da
    Tarde!!!!
    ... Continua....

    AP

    ResponderEliminar
  9. LOL... claro que tem bicho... afinal também eu sou um ser humano... ;)

    Digamos que tento apenas ter algum critério na escolha da bicharada.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.